domingo, março 17, 2013

TEIXEIRA DE PASCOAES NA BIBLIOTECA AC

Escrito por gatodasletras el 06/08/2005 




sábado, 6 de Agosto de 2005

A MINHA SAUDADE DE PASCOAES

O livro que o meu amigo A . Cândido Franco me ofereceu (*), em Outubro de 2003, torna inadiável neste blog a minha referência a Teixeira de Pascoaes e faz com que eu vença esta minha inércia para falar daqueles de quem mais gosto.
Sempre me é difícil falar daqueles que mais me disseram e ensinaram, como foi o caso de Pascoaes, tanto como Fernando Pessoa.
O pouco que inseri no meu site «Gato das Letras» foi o muito que consegui, com grande vergonha minha, escrever sobre Pascoaes.
Hoje é mesmo para quebrar esse silêncio e vos remeter para duas referências, qualquer delas de 5 estrelas:
1. O livro de A . Cândido Franco, «Teixeira de Pascoais – Espólio Manuscrito na Biblioteca Pública Municipal do Porto» (*)
2. O livro de Maria da Glória Teixeira de Vasconcelos, «Olhando Para Atrás Vejo Pascoaes», Ed. Livraria Portugal, Lisboa, 1971

(*) Em destaque e com muita honra, a dedicatória que Cândido Franco escreveu no seu precioso livro editado pela Câmara Municipal do Porto:« Ao Afonso Cautela, leitor antigo de Pascoaes, oferece com lembrança amiga o seu A . Cândido Franco, Lx., Outubro de 2003.»

O retrato de Columbano, que ilustra este dia do meu blog, foi digitalizado do livro de Maria da Glória Teixeira de Vasconcelos


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sábado, março 16, 2013

FIALHO DE ALMEIDA NOS ARQUIVOS AC

Escrito por gatodasletras el 04/08/2005
 

GATOS E FIALHO: UM REENCONTRO DE SEMPRE

Nesta galeria de autores (e livros) que foram meus amigos e de quem fui amigo, deverá ter lugar mais do que especial o meu primo Fialho de Almeida, que li desde, pelo menos, os meus 10 ou 12 anos. O meu pai tinha todos os seus livros, na edição da Clássica e que ainda conservo.
Se não os li a todos, foram pelo menos alguns dos primeiros que preencheram as minhas leituras, até de madrugada, na nossa casa de Ferreira do Alentejo.
Não perdi muitos títulos desse tesouro, acrescentei algumas edições mais modernas e escrevi textos que não seriam todos os que, por gratidão e devoção, quereria ter escrito sobre o meu primo e amigo Fialho.
Não quero deixar de registar a mais recente alegria que me foi dada: o livro «O Essencial sobre Fialho de Almeida», do meu amigo António Cândido Franco, edição Imprensa Nacional-Casa da Moeda. Trancrevo a dedicatória: «Ao Afonso Cautela, homenagem amiga do A. Cândido Franco.»
***
No meu espólio há uma pasta (preta vulgaris) nº54 (bola azul) com recortes alusivos a Fialho, assim como uma outra pasta não numerada com o título «Fialho Morto Querido», com documentos sobre Fialho.

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sexta-feira, março 15, 2013

ANTÓNIO QUADROS NOS ARQUIVOS AC

Escrito por gatodasletras el 04/08/2005
 

segunda-feira, 1 de Agosto de 2005

ANTÓNIO QUADROS, O JORNAL «57» E EU


Data, pelo menos, de 1957, a amizade que me ligou ao escritor António Quadros.
Aceitou-me no jornal «57», que dirigia e onde colaborei com vários artigos.
No quinzenário «A Planície», de Moura, escrevi sobre um livro seu que muito me interessou: «A Angústia do Nosso Tempo e a Crise da Universidade» (1956).
É um dos documentos que deixo no meu site «O Gato das Letras», portal Big-Bang, secção «Lugar aos Amigos» .
Mas os melhores documentos são manuscritos e dactilmanuscritos, dele e meus, que guardo para a história na pasta preta vulgaris, Nº 48 (bola azul) do meu espólio.
Além das cartas trocadas entre nós, há uma dactilografia minha, extensa, sobre o jornal «57» , e que nunca talvez venha a saber se foi publicada: é provável que sim, porque se trata de uma cópia a papel químico do original
As minhas dissidências com a gente d’ A Planície, quinzenário de Moura, nunca com o Miguel Serrano mas com o núcleo do Porto que se tornou dominante no jornal, começaram exactamente por essa minha amizade com António Quadros. Para os esquerdistas meus «amigos» era proibido escrever sobre o filho de António Ferro e colaborar no jornal por ele dirigido.
Anos mais tarde, num dos meus muito desempregos, foi ele, como director das Bibliotecas Itinerantes da Fundação Gulbenkian, que me deu oportunidade de trabalhar na itinerante de Tavira.
Volto sempre a ler os seus livros, incluindo aqueles em que estuda a filosofia portuguesa e não preciso de dizer que concordo com a maioria das suas teses, correctíssimas num país de intelectuais desalmados, para não dizer de «estrangeirados» sem remédio.

Voltarei sempre que possível a reler o António Quadros, repertório inesgotável de ideias e lucidez inexcedível.

A sinopse biográfica de António Quadros (1923-1994) no quadro da filosofia portuguesa, pode ser visto no site do Instituto Camões:

http://www.instituto-camoes.pt/cvc/filosofia/1910g.html

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quarta-feira, março 13, 2013

LOUIS PAUWELS NOS ARQUIVOS AC

Escrito por gatodasletras el 22/10/2005 

LOUIS PAUWELS E O REALISMO FANTÁSTICO




Uma breve remissa, hoje, para o muito que escrevi sobre Louis Pauwels e o movimento «Planète», ao longo dos anos, desde que, em 1960, li por inteiro, durante uma noite, as 500 páginas do livro «Le Matin des Magiciens - Introduction au réalisme fantastique», edição da Gallimard.
Fiquei fã, imediatamente, dos seus dois autores - Louis Pauwels e Jacques Bergier - e de tudo o que era a espantosa revelação desse movimento chamado «realismo fantástico».
A seguir, os links que podem ser úteis a quem se interessar por esta matéria para mim inesgotável:

Ver mais em:
http://catbox.info/big-bang/gatodasletras/pauwels.htm
http://countdown-2012-artigot.blogspot.pt/2011/01/o-despartar-dos-magicos.html
http://catbox.info/big-bang/gatodasletras/casulo1/PAUWELS.HTM

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terça-feira, março 12, 2013

RAMON LULL NA BIBLIOTECA AC







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RAMON LULL NOS ARQUIVOS AC

Escrito por gatodasletras el 14/07/2005 

ACTUALIDADE DE RAMON LULL

Escrito por gatodasletras el 09/07/2005
A VIDA DE UMA VIDA

Nascido provavelmente em 1232 e provavelmente falecido em 1315, foram, pelo menos, 83 anos de energia invencível, que não deixaram de aborrecer solenemente as autoridades inquisitoriais da época e continuam perturbando os vindouros. A própria Igreja, que o classificou de Doutor Iluminado, em devido tempo e latim, e lhe deu um dia no calendário cristão - 28 de Março - não soube ainda muito bem como digerir este santo e mártir/, que dominou, com a ajuda de Deus ou do Demónio, a ciência da época, criou quase ex-nihilo a língua literária catalã, deixou rastro premonitório nas terras do levante islâmico, foi delapidado por muçulmanos, tentou o primeiro «aggiornamento» entre árabes e cristãos, e permanece ainda hoje tão actual, tão enigmático e tão inviolável a biógrafos como o foi sempre.
Quando se julgava que toda a Europa dormia o sono dos justos, na letargia da passividade, encontrava-se em ebulição este vulcão chamado Ramón Lull e que ainda hoje não está extinto. O tempo «apagado» de obscurantismo católico, que foi a contemporaneidade de Llull, torna-o ainda mais luminoso.

Actualidade de uma vida

Como quem já previa a crise mundial do momento, o livro(*) sobre o cavaleiro e eremita maiorquino é exemplar de oportunidade: o mesmo homem que pregou a vocação universalista do cristianismo e a cruzada para a reconquista das terras santas, o que fez missão de converter os infiéis, ficou - paradoxalmente? - na história como o grande divulgador da cultura muçulmana e introdutor dos estudos árabes no Ocidente. Para isso ele aprendeu a língua árabe, ao que consta com um seu criado desta nacionalidade. Como acentua a autora, «esta é apenas uma das ironias do seu destino paradoxal».
A não luxuosa mas preciosa edição, lançada pela Dom Quixote, vem enriquecida pela tradução da «Vida Coetânea», um dos raros indícios biográficos que existem sobre o Doutor Iluminado. Em 1913, Ramón Lull conta a sua vida, presumivelmente aos amigos da Cartuxa de Vauvert, narrativa que mão anónima redigiu, provavelmente a dele próprio. Uma tábua sincrónica ajuda a balizar, com nomes e datas, a vida sem balizas de Ramón.
O livro de Luísa Costa Gomes é também um incitamento ao estudo do «sistema lulliano», que, sob a designação de «lullismo», conseguiu provocar uma polémica ainda hoje em aberto: por mais longe que se vá no desvendar da personalidade deste enigmático senhor - e poucos terão ido tão longe na ousadia de a «imaginar», como o faz Luísa Costa Gomes - muitos são os escaninhos e meandros que permanecem indecifráveis. Não só pelo número impressionante de obras que deixou, - alguns apontam para quatrocentos títulos - não só pela vastidão de matérias e ciências que abrangeu, mas pelo carácter paradoxal que domina o seu itinerário de «extraterrestre» e «mutante» antes do tempo. Algumas facetas deste homem ficariam sempre por averiguar: em «Vida de Ramón», parece ter sido a personalidade do alquimista, negada posteriormente pela Inquisição, aquela que a autora também preferiu não enfatizar. Mas, curiosamente, era no domínio do «oculto» que o processo seguido por esta biografia «imaginada» poderia operar com maior legitimidade. Não estranhemos, aliás, que ela ou alguém volte a pegar em Ramón, para reimaginar algumas das várias vidas e personalidades que nele parece terem coexistido e que nunca ficarão suficientemente tratadas, por mais que exaustivamente alguém as trate.
Também nesse aspecto, esta é uma «biografia aberta», o primeiro passo de um caminho, o primeiro avanço numa pesquisa, numa estrada que conduz ao infinito. Mérito de Luísa Costa Gomes é ter visto que ao agarrar Ramón era a ponta da meada que agarrava. (AFONSO CAUTELA)
*

UM GÉNIO DA ALQUIMIA EUROPEIA:
RAMON LULL E O LULISMO EM PORTUGAL
(FICHA ENCICLOPÉDICA)

RAMON LULL 1( Enciclopédia Verbo) - Missionário e pensador catalão ( Palma de Maiorca, entre 1232 e 1235).
Depois de levar vida mundana, abandonando mulher e filhos, entregou-se ao apostolado.
Desde então a sua vida é um contínuo peregrinar por Barcelona, Montpellier, corte papal, Paris, Génova, Norte de África, Chipre e Palestina, sempre com o mesmo objectivo de dar a conhecer a sua «Ars Magna» e de a pôr ao serviço da conversão de infiéis, em especial judeus e muçulmanos.
Para o fim da vida, o missionário dá lugar ao apologista que fez frente ao crescente averroísmo da Sorbonne.
No meio da sua vida agitada, pôde compor uns 256 livros ( com 27 mil páginas) que reflectem todos os aspectos do saber.
Lull escreveu em árabe, mais frequentemente, em catalão, fazendo com que logo os seus escritos fossem traduzidos para latim.
Se bem que o pensamento de Lull se não exaura com a «Ars Magna», esta obra é a que lhe mereceu maior fama.
Está-lhe subjacente o ideal missionário.
Lull parte da convicção da unidade da verdade , e daí vai à busca de um método para demonstrar as verdades da fé aos infiéis por meio das chamadas «razões necessárias».
Para isso põe em Deus uma série de princípios ou atributos essenciais, como a bondade, a grandeza, a eternidade, o poder, a sabedoria, etc., esforçando-se por relacioná-los com a sua semelhança nas criaturas.
Surge assim uma lógica comparativa, não formal mas material e, por assim dizer, ontológica, na qual o movimento dos conceitos segue o movimento da realidade.
Para facilitar o seu uso, Lull recorre a um sistema de letras, números e figuras geométricas que converte a sua arte num antepassado da lógica simbólica.
Certamente reside aqui - neste esforço para sistematizar e unificar o saber - a raiz da sedução que o pensamento de Lull exerceu na história.
Por isto tudo, Lull foi acusado de racionalismo e a sua doutrina condenada por Gregório XI, em 1376 (se bem que, posteriormente, Martinho V declarasse a bula papal sub-reptícia e nula).
Hoje é bem claro que as razões necessárias de Lull não passam de razões de congruência e que de, modo geral, o seu pensamento se situa no horizonte pré-tomista de Stº Anselmo e dos Victorinos, com o seu optimismo racional, mas também com uma visão agustiniana das relações entre a razão e a fé.
Sublinhe-se que a «Arte» de Lull é, ao mesmo tempo, procedimento lógico e método de contemplação.
Em Lull, o lógico e o polemista andam juntos com o místico.
À inteligência compete abrir o caminho para Deus, logo se retirando para deixar caminho livre ao amor .
O termo da filosofia é a porta para a mística.

RAMON LULL – 2 - Famoso filósofo medieval, poeta, teólogo e missionário maiorquino, chamado Doctor Iluminatissimus, Raimundo Lull foi o primeiro apóstolo do mundo muçulmano , numa época em que o islamismo era ele mesmo fortemente missionário, espalhando-se pelo arquipélago malaio e pela Índia, Geórgia, Egipto e entre os Mongóis , considerando crime de morte a apostasia dos seus.
Nasceu em Palma de Maiorca, circa 1235, de uma família nobre catalã ali estabelecida com extensas terras, desde a reconquista aos árabes.
O jovem Raimundo, casado cedo e trasladado ao continente, onde foi feito senescal na corte de Jaime II, experimentou as agitações de uma aventurosa e dissipada existência; mas em Julho de 1266, à volta dos trinta anos, renunciou subitamente à poesia erótica que cultivava e que o faz ser considerado o fundador da escola catalã de poesia, e à vida mundana que levava, desfez-se da maior parte dos seus cabedais, ficando com o indispensável para sua manutenção e de sua mulher e filhos e entregou-se, não a uma vida contemplativa, que a sua alma ardente e entranhadamente imaginosa não poderia levar, mas à meditação e ao estudo, no desejo de aplicar as suas faculdades na extensão do cristianismo.
Tem-se dito que tomou o hábito franciscano, outros pensam que foi irmão terceiro dessa ordem, mas nada está claramente comprovado a esse respeito, como em tantos outros particulares da sua vida.
O seu grande inimigo, inquisidor de Aragão Nicolau Aymerich, que forjou a célebre bula de S. Gregório para o perder, considera--o um comerciante herege, e denuncia quinhentas proposições suas como heterodoxas.
Em contacto com os sarracenos vizinhos e com os vestígios que eles haveriam deixado nas Baleares, deixou Lúlio medrar em seu espírito o fervoroso desejo de converter os muçulmanos com uma nova cruzada.
Mas esta cruzada, em seu desejo, não era da cruz no punho das espadas mas de uma cruz ideal , de pregação inteligente e perseverante, de lógica e de paciência.
Em vão procurou interessar papas e cardeais e até reis, no seu sonhado empreendimento.
Desacompanhado de todo o auxílio, viajou por fim para Tunes.
Tinha então 56 anos e era esse o ano em que chegava à Europa Ocidental a confrangedora notícia da queda de Acre e do fim do estado cristão da Palestina.
Antes deste decisivo sucesso da sua vida, peregrinara a Santiago de Compostela, cursara e escola de Montpellier, depois dos estudos particulares em Palma e a uma solidão completa se votara por algum tempo, preparando-se para a sua cruzada.
Para conhecer o árabe, comprara um escravo sarraceno com quem estudou durante anos, e que por fim atentou contra a vida do amo.
Dotado de imaginação ardente, quis inventar um método novo de lógica, uma espécie de mecânica filosófica, com o auxílio da qual todos podiam dissertar com subtileza sobre qualquer matéria.
Ele mesmo veio a dar solução a quatro mil problemas postos, por meio do seu método, chamado « Ars Generalis Sive Magna», porventura a sua obra mais divulgada.
Como os árabes tinham tido o primado da ciência e da filosofia mediterrânicas, ele entendia que era com um cristianismo racional que poderia conquistá-los.
Estudou Averrois para o combater, sempre com um alvo missionário.
A chamada «doutrina lulliana», tendente a demonstrar pelo raciocínio a verdade dos dogmas cristãos, veio a ser renovada trezentos anos depois por Giordano Bruno.
Foi por meio de incríveis esforços que Lúlio conseguiu difundir na Europa a sua doutrina da fé provada, e se é certo que veio a ser publicamente ensinada em 1298, graças ao patrocínio de Jaime II e Filipe o Belo, contudo não foi apreciada devidamente durante três séculos.
As vistas do filósofo estavam demasiadamente acima do tempo em que viveu e não poderia provocar mais do que uma vã e fútil admiração.
Em Tunes conseguiu convencer alguns islamitas reputados e muitos outros do povo, que receberam o baptismo cristão; mas um zeloso imame aconselhou às autoridades o seu encarceramento e morte, em razão do perigo que ele representava.
Depois de algum tempo, foi-lhe comutada a pena de morte na de banimento.
Não lhe sofreu o ânimo os seus conversos, e voltou de novo a Tunes, mas a 30-6-1315, em Bugia, na Argélia, morreu apedrejado.
Figura desconcertante, assim o consideram alguns críticos, e assim serão forçados a considerá-lo os leitores das numerosas biografias e críticas que lhe têm sido feitas.
Auxiliarão, contudo, no dédalo das considerações a fazer, estes dois factos: que são considerados espúrios, com forte motivo, os trabalhos de alquimia e de cabala que lhe foram atribuídos e estão coleccionados com as suas obras; e que as ideias de Pedro Venerabilis (morto em 1157), advogadas por Lúlio e adoptadas pela primeira vez por ele na missão prática, o levaram e especializar-se não só na língua como no pensamento árabe, o que não se poderia dar sem alguma influência verificada desse pensamento na sua obra.
«Charlatão vádio» lhe chamou Bacon com extremo rigor e injustiça.
Mesmo que haja juntado as ciências ocultas, a cabala, a magia, a alquimia aos seus estudos sérios, ainda se poderá perguntar a que título e como as estudou.
A Igreja de Roma tem oscilado entre condená-lo como heterodoxo e honrá-lo como mártir , não podendo desdenhar o testemunho, que a história lhe dá, de precursor das missões modernas.
O Dr. Joaquim de Carvalho reconhece uma rápida influência de Lúlio no « Leal Conselheiro» de D. Duarte.
O escultor catalão João Samsó erigiu-lhe uma estátua cheia de nobreza e as suas cinzas, recolhidas em Bugia e transportadas, repousam num sarcófago historiado na sua cidade natal.
As suas obras foram publicadas em Mogúncia, em dez volumes, de 1722 a 42.
Por meio da alquimia, Lúlio preparou, pela primeira vez, o álcool anidro, o carbonato de potássio a partir do creme de tártaro, descreveu a água régia, etc.

LULISMO - É assim designado, não tanto o projecto de Raimundo Lull relativo a uma ciência universal - que interessou pensadores da craveira de Nicolau de Cusa, Pico, Bruno, Descartes, Bacon, Gassendi e Leibniz - mas o germe de uma «escola» que , logo após a morte de Raimundo Lull, lançou raízes em Valência, Barcelona e Maiorca, de onde irradiou para Castela, Portugal e Itália.
Pedro Dagui é a figura central deste Lulismo catalão pré-renascentista.
Simultaneamente surge em Paris, em redor do fundo ms. legado por Lull à Cartuxa de Vauvert e dirigido por T. Le Myésier, um pequeno núcleo lulista.
Com este se virá a relacionar, provavelmente através do flamengo H. de Campo, o Lulismo de Nicolau de Cusa.
Em pleno renascimento, Lefèbvre d´Étape dá nova vida, em Paris, ao Lulismo de carácter religioso e místico, ao passo que na Alemanha, A. de Nettesheim e Paracelso cultivam o Lulismo, respectivamente, lógico-enciclopédico e médico-alquimista.
Na confluência deste Lulismo europeu renascentista surge o Lulismo de Giordano Bruno e, posteriormente, o do humanista protestante alemão J.E. Alsted.
Entretanto, em Espanha, sob a protecção de Cisneros e Filipe II, a escola lulista tinha-se difundido com fortes raízes.
Surgem cátedras lulistas em várias universidades, principalmente em Maiorca.
N. de Pachs, J. L. Vileta e F. Marzal são os mestres mais influentes na época. À margem da actividade escolar, o Lulismo influi em figuras que rodeiam Filipe II, como P. de Guevara e J. de Herrera.
No século XVII, os jesuítas S. Izquierdo e A. Kirchner reelaboram um Lulismo em sentido enciclopédico.
Em ambos se inspirará a «Dissertatio Art Combinatória» de Leibnitz.
Ainda no século XVIII se encontram duas notáveis aflorações de Lulismo, uma em Mogúncia, graças a J. Salsinger, autor de uma edição monumental das obras de Lull, e outra em Maiorca, com figuras como o jesuíta J. Costurer e, sobretudo, o cistercience A. R. Pascual.
A par do Lulismo autêntico, encontra-se um Lulismo espúrio, centrado no «Testamentum» e noutros escritos pseudo-lulianos de alquimia, e até uma corrente antilulista, cujos primeiros e principais representantes são, na Catalunha, o inquisidor N. Eymerich, e , em Paris, o chanceler Gerson. Desde o fim do século XIX renasceu, em Espanha e fora dela, o estudo de Raimundo Lull, mas agora ao nível da história, sem pretender construir uma corrente de pensamento.

LULISMO EM PORTUGAL - Foi persistente a influência do Lulismo em Portugal, atingindo mesmo certa irradiação (séculos XV-XVI), desenvolvendo-se a produção literária, de valor desigual, em três direcções ou tendências (seguindo a classificação proposta por Carreras Artau):
A) Polémico-racionalista, de que ficaram numerosos testemunhos da disputa religiosa de cristãos contra judeus e muçulmanos, sendo obra capital o «Livro da Corte Enperial» (século XV), tendo Lúlio servido não só de inspiração quanto à temática e finalidade apologética como ainda no directo aproveitamento textual( Cruz Pontes).
B) Lógico-enciclopedista, atestada por vastas compilações, em códices medievais pertencentes às bibliotecas monásticas de Sta Cruz de Coimbra e de Sta Maria de Alcobaça.
Denotando persistência de preocupações lulianas até ao século seguinte, ficou-nos o incunábulo gótico «Ars inventiva veritatis cum Commento»(Valência,1555).
Em 1431, documenta-se a presença em Lisboa de um Mestre Adrião, que ensinava porventura em escola privada, a arte luliana: e será a esses sequazes de Lúlio que D. Duarte, no «Leal Conselheiro» alude, censurando neles a intenção demonstrativa nas matérias do Dogma, pela sua racionalização, muito embora, no domínio da Moral, o monarca cite como autoridade e aceite, em vários passos da obra, teses lulistas.
Registam-se ainda influências lulistas, mais ou menos esparsas, em outra obras da época, como a «Virtuosa Bemfeitoria» e o « Bosque Deleitoso».
C) Mística,feição que tem levado a atribuir papel relevante à formação da mundividência colectiva portuguesa, e que explica, senão contribuiu, para originar a Expansão.
Segundo um dos mais destacados defensores desta tese, Jaime Cortesão, os franciscanos teriam sido «os principais criadores da mística dos descobrimentos» e, por sua vez , como intérprete dos ideis seráficos, Lull é considerado « o tipo porventura mais perfeito do tipo de proselitismo franciscano».
Com efeito, o Maiorquino defendeu o apostolado missionário com vista à conversão dos gentios, e daí a apologia do estudo das línguas orientais, sobretudo do árabe, a conquista dos estados muçulmanos desde Ceuta até ao Levante , chegando a sugerir, segundo Beazley, o plano, de circum-navegar a África para alcançar a Índia.
Sob este aspecto, as preocupações da época pela cartografia, astrologia, astronomia e náutica levavam a descobrir novos motivos de interesse no «opus»luliano, ou em escritos apócrifos (pseudo-lulismo)de carácter esotérico e cabalístico.
No Renascimento, o Lulismo traduz-se na terminologia e na feição de teologia racionalizante de algumas obras portuguesas, denotando por vezes a nova ambiência pré-reformista, como no caso de Gil Vicente( A.J. Saraiva)ou, com matizes humanistas, na «Ropica Pnefma» de João de Barros.
*
O nome de Ramon Lull aparece citado em textos AC, nos seguintes files word:

lull>
lulio>
Alojados na pasta com o código -LS (Leituras Selectas)



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SIMONE WEIL NA BIBLIOTECA AC

Escrito por gatodasletras el 15/07/2005

«O BEM É AQUILO QUE DÁ MAIOR REALIDADE AOS SERES E ÀS COISAS; O MAL É AQUILO QUE DISSO OS PRIVA.»
SIMONE WEIL, FILÓSOFA FRANCESA (1909-1943)


Hoje é a minha homenagem, via blogger, a Simone Weil, com 3 files que coloquei nos meus arquivos de manuscritos, dactil-manuscritos e prints de files word.(*)
O pouco que escrevi e publiquei sobre Simone Weil está no meu
site «O gato das Letras», do portal «Big-Bang»
Restam-me dois livros na minha biblioteca do gato

1. Simone Weil - L'Enracinement - Idées - NRF- Ed. Gallimard, 1949


2. Simone Weil - Opressão e Liberdade - Ed. Moraes, Lisboa, 1964


O meu obrigado a todos, incluindo os que lerem esta mensagem de gratidão e solidariedade.

A verdade e sem lamentos é que Simone Weil continua esquecida e há que fazer também um link para a net, a saber o que há sobre ela, incluindo uma foto.


(*) O nome de Simone Weil aparece citado em textos AC, em 3 files word:
ec-humª-ls-
janº-18-ls
weil-1-md-ls
O código LS significa «leituras selectas» e é aposto nos files e na pasta que os acolhe. 

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segunda-feira, março 11, 2013

JORGE LUÍS BORGES NA BIBLIOTECA AC-I

Escrito por gatodasletras el 17/07/2005

16-07-2005 


BORGES E SERAFIM FERREIRA: LUGAR AOS AMIGOS

O nome do meu querido amigo Serafim Ferreira anda, para mim, indissoluvelmente ligado ao de Jorge Luís Borges.
Desde, pelo menos, que ele publicou na editora Início as «Entrevistas com Jorge Luís Borges» (1967?) e na editora Presença «Jorge Luís Borges»,  (1965) uma antologia apresentada, organizada e traduzida por Serafim Ferreira.
É com enorme alegria que leio hoje no jornal «Público» a notícia de que o Serafim acaba de traduzir mais um livro de Borges: «O Livro dos Seres Imaginários», ed. Teorema, 2005.
Posso imaginar o prazer que lhe deu traduzir o Borges da Zoologia Fantástica. Com o Serafim aprendi a venerar este autor que vi referido, a primeira vez, em 1960, no livro de Louis Pauwels e Jacques Bergier, «Le Matin des Magiciens».
Em homenagem a Borges e ao Serafim, vou à procura nos meus arquivos Big-Bang, dos files com referências a Borges, a Serafim Ferreira e a «Le Matins des Magiciens.»
É um trabalho selectivo que irá exigir-me contenção sinóptica: tem mesmo que ser uma selecção muito selectiva, pois são inúmeros , talvez dezenas, os files com aquelas referências: Borges, Serafim Ferreira e «Planète».
Orgulho mesmo é poder anunciar aqui, neste blog dos livros da minha vida, que a Biblioteca do Gato conserva ainda treze títulos, embora dois dos nove das obras completas (ed. Emecê) estejam desaparecidos: talvez os tenha emprestado ao Serafim, mas nesse caso foi por uma boa causa e foram parar a boas mãos.

13 TÍTULOS NA BIBLIOTECA DO GATO

Georges Charbonnier – «Entrevistas com Jorge Luís Borges» - Ed. Início, Lisboa, 1967 (?) – Trad. de Serafim Ferreira
Serafim Ferreira - «Jorge Luís Borges » – Ed. Presença, Lisboa, 1965
Jorge Luis Borges - «História Universal da Infâmia» - Trad. José Bento – Ed. Assírio Alvim
Jorge Luis Borges - «Ficções» - Col. Novis, Nº 13 – Ed. Abril/Control Jornal , Lisboa, 2000
Jorge Luis Borges - «Nova Antologia Pessoal» - Ed. Difel, Lisboa, 1987
Jorge Luis Borges - «Este Ofício de Poeta» - Ed. Teorema, Lisboa, 2002
Jorge Luis Borges - «El Aleph» - Ed. Emecê, Buenos Aires, 1957
Jorge Luis Borges - «Historia Universal de la Infamia» - Ed. Emecê, Buenos Aires, 1957
Jorge Luis Borges - «Evaristo Carriego» - Ed. Emecê, Buenos Aires, 1957
Jorge Luis Borges - «Ficciones» - Ed. Emecê, Buenos Aires, 1957
Jorge Luis Borges - «Discusión » - Ed. Emecê, Buenos Aires, 1957
Jorge Luis Borges - «Otras Inquisiciones» - Ed. Emecê, Buenos Aires, 1957
Jorge Luis Borges - «El Acedor» - Ed. Emecê, Buenos Aires, 1957 ■


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ROGER CAILLOIS NA BIBLIOTECA AC-I

1-3 - caillois-1-ls-> quarta-feira, 18 de Dezembro de 2002-scan

A AVENTURA POÉTICA
PRELUDIA A AVENTURA TRÁGICA(*)


[ ?????] – 1 - A aventura poética preludia a aventura trágica. A palavra antecede ou prefacia o silêncio, a existência o ser, a vida a morte, e a literatura o teatro

Entre uma e outra aventura, a quietude ou abstenção mística, ausência de palavra e de acto, tempo de suspensão entre a palavra e o silêncio, entre o poético  e o trágico, o literário e o teatral.

Silêncio entre o silêncio da linguagem e a linguagem do silêncio.

Limiar da encenação trágica,  a ascese mística elide a palavra - que era para o coro dionisíaco uma das máscaras - e acto. O corpo do místico antecede imediatamente o corpo do actor. A mímica do êxtase prefigura a mímica teatral. Na meditação mística ou existencial inicia-se a «doença» que é o pensar sobre a morte ou sobre o «mal de existir», doença que eclodirá na morte em acto da tragédia. Na exasperada individuação do místico atinge a vida uma das fronteiras com a morte, fronteira idêntica à que se toca na tragédia.

2 - Actor é o que põe em acto a morte, o que, vivendo a morte, a esconjura ou exorcisma, por
catarse, do corpo do espectador.

Ao falar da quietismo ou abstenção mística, pressupondo incluída a meditação existencial de quantos, dentro ou fora da ortodoxia cristã, heréticos ou não, se interrogaram sobre o «mal de existir», sobre a «doença de existir».

Todos os que, de Buda a Schopenhauer, de Sócrates a Pascal, de Ésquilo a Nietzsche, de Dostoievski a Chestov, de Santo Agostinho a Kierkegaard, de Kafka a Fernando Pessoa, de Raul Brandão a Camus, repuseram o eterno enigma, reformularam a eterna pergunta, sem nunca ouvirem a resposta, nem por uma ideia, nem por uma crença, nem por um argumento, nem por uma evidência.

Não houve promessas de outros mundos, não houve paganismos e neo-paganismos, não houve religiões de igreja e religiões de estado, messianismos políticos e políticos messias, humanismos e humanistas, salvações e salvadores do mundo, não houve evidências, não houve sistemas, promessas de felicidade e cura, a curto ou longo prazo, para este e para o outro mundo, não houve talismãs, técnicas, poderes, ciências, não houve optimistas e optimismos,  não houve nada, nada que abafasse a voz trágica nada que impedisse o homem de temer a morte e desafiá-la, de lhe fugir e para ela fugir, de a tentar e de nela se tentar, nada que explicasse a esfinge, nada que matasse a fome de absoluto, nada que resolvesse o mistério da existência. Nada acalmou nem calou a voz trágica, voz do silêncio, voz das vozes que o homem perdeu e nele se perderam, voz de quando já nada se sabe , pode e quer dizer.

3 - Na tragédia, nada se afirma e nada se nega. Tudo vem do enigma e a ele volta. A tragédia é o campo infinito da interrogação. O campo da liberdade.
Mas fora do teatro, do teatro quimicamente puro que é a tragédia, o homem não deixa de prefaciar a morte, de pensar a morte, de interrogar a morte. Não deixa por isso de falar, de escrever, de, em suma, «fazer literatura».

Esta a única justificação que ainda hoje pode ter a literatura: a de servir de prefácio à encenação trágica, à montagem teatral, à acção do actor. O autor serve o actor.

Fora isto, que motivos, além dos inconfessáveis, pode haver para defender ainda a literatura? Fora isto, que pode ser a literatura além de "cochonnerie»?

4 - Para Artaud, o teatro nunca poderia ser o que a degradação burguesa fez dele: uma dependência da literatura, da linguagem, da imunda palavra; o teatro, na sua origem, é a tragédia, assim como a literatura, na sua origem, é a poesia.

5 - Quando o teatro procura a sua essência, ou origem ou substância, ou autenticidade, procura-a nas manifestações ditas religiosas de civilizações perdidas e ignoradas da Civilização, e diz-se que reassume o carácter religioso ou de religião o carácter de comunicação esotérica ou comunicação sem palavras oposta à comunicação exotérica ou literária.

Este (o teatro da morte e do sagrado e do esotérico) é o teatro das trevas, das vísceras e artérias fluindo, do esgar, da mímica, do ritmo e do ritual, da orgia, da dança, da festa, o
teatro de Diónisos, o teatro do actor e só do actor.

6 - No conspecto trágico, a morte não é um apêndice, um terminal da vida. No contexto trágico, a morte é outra realidade (outra vida?) que a vida desconhece.

Medianeiro entre uma e outra realidade, é o actor e, por extensão, o teatro. O actor representa a morte. Induz  a morte da potência ao acto e do acto ao facto.

O autor trágico pensa a morte O actor trágico vive a morte. Pensar a morte é ser doente,
doente do «mal de existir»

O tempo é para o suicida, o doente incurável, o condenado à morte, o soldado em. Campanha,  para todo o que pensa a morte, a única realidade.

O tempo é para o actor que vive a morte, a única realidade.

Vivendo a morte,o actor (trágico) vive a liberdade que é a morte.

A liberdade, para ser liberdade, infinitamente se reclama a si própria, até à liberdade das liberdades - a morte.
A liberdade é o único absoluto. E só o teatro, na pureza da sua origem - a tragédia - a representa. Teatro e morte identificam-se. Ser absolutamente é morte e teatro.

Sinónimos entre si,  tragédia, teatro e morte são também sinónimos de alegria, de dionisíaca alegria, e autores trágicos não são pessimistas como diz a crítica, mas apenas isso: trágicos.

7 - A guerra sacralizou-se, na guerra está, segundo Roger Caillois, o sucedâneo das festas, dos ritos orgiásticos, do coro dionisíaco. E no único, exclusivo, desmedido palco do mundo estaria hoje, realizando-se pelo avesso, a tragédia quimicamente pura, a essência do teatro.

Erguer pequenos palcos, neste palco gigante, parecerá uma redundância. Mas não é. É virar a tragédia para o direito. É passar a ferro e a miniatura o mundo de hoje . É o  eco do eco do eco do coro dionisíaco.

Tempo de excesso, de violência, de ultraje (L'Homme et Le Sacré , de Roger Caillois, pág.. 230) de alguns homens sobre todos os homens, eis que outra minoria ergue sobre o palco de tábuas a réplica desse excesso, dessa violência, desse ultraje.

Só com a  diferença; enquanto no pequeno palco o trágico é de significação individual, no palco da história o trágico é de proporções colectivas e os assassinos não prestam contas a ninguém.

Falsos Diónisos, possessos apenas de raiva (Tisífone), de carnificina (Megere), de inveja (Alecto), nada há nessas erínias que lembre e honre a fúria dionisíaca.

Por  isso é necessário continuar representando, em palco aberto, o último acto da tragédia, ritual de sacrifício e crueldade em que o homem será a vítima oferendada a si próprio. A encenação está feita, o palco montado, os actores em acção.
----  
(*) Esta estranha prosa de Afonso Cautela, claramente sob o efeito do «Théatre et son Double» de Antonin Artaud, só cita Roger Caillois e foi publicada no suplemento literário do «Jornal de Notícias», Porto, em data por identificar


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ANTONIN ARTAUD NA VIDEOTECA AC


segunda-feira, 11 de Março de 2013



ANTONIN ARTAUD: UMA EXPERIÊNCIA INICIÁTICA 
QUE SE IGNORA COMO TAL


Arrumado na estante dos filósofos ( e filosofias) existenciais, Antonin Artaud marcou o Trajecto AC por ser uma encruzilhada de caminhos onde convergem e de onde divergem os que, de um modo geral, designei por «Errâncias da Razão».
E neste sentido, o surrealismo está potencialmente presente.
Encarado mesmo objectivamente, a principal característica de Antonin Artaud será a de não se enquadrar em nenhum ismo mas, pela vivência de duras provas e provações (experiência que se diria iniciática) vai abranger uma rede de linhas e de interligações que só ele, pela experiência vivida, estava em condições de (d) escrever.
Existencial e surreal fundem-se em Antonin Artaud.

*

http://www.respire-asbl.be/Extrait-de-Pour-en-finir-avec-le
http://www.dailymotion.com/video/x9idj5_antonin-artaud-pour-en-finir-avec-l_webcam

TEMAS DA CASSETE VÍDEO:

Poema para além do Tempo a Antonin Artaud
Pour en finir avec le jugement de Dieu
Les Epiphanies , de Henri Pichete



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ANTONIN ARTAUD: A CATARSE TRÁGICA




    ANTONIN ARTAUD FRENTE AO «MAL DE EXISTIR»


     O TEATRO E A MORTE OU A CATARSE TRÁGICA (*)


(*) Este texto de Afonso Cautela foi publicado no  suplemento literário do «Jornal de Notícias» (Porto), em 23.Janeiro.1964

1 — A aventura poética preludia a aventura trágica. A palavra antecede ou prefacia o silêncio, a existência o ser, a vida a morte. E a literatura o teatro.
Entre uma e outra aventura, a quietude ou abstenção mística, ausência de palavra e de acto, tempo de suspensão entre a palavra e o silêncio, entre o poético e o trágico, o literário e o teatral, silêncio entre o silêncio da linguagem e a linguagem do silêncio.
Limiar da encenação trágica, a ascese mística elide palavra — a palavra que era para o coro dionisíaco uma das máscaras — e acto. O corpo do místico antecede imediatamente o corpo do actor. A mímica do êxtase prefigura a mímica teatral. Na meditação mística ou existencial inicia-se  a   «doença»   que  é  o   pensar sobre   a   morte   ou   sobre   o   «mal de  existir»,   doença   que   eclodirá  na   morte em  acto   da   tragédia.
Na   exasperada  individuação   do místico  atinge   a   vida   uma das fronteiras com a morte, fronteira idêntica à  que se toca  na tragédia.
Actor é o que põe em acto a morte, o que, vivendo a morte, a esconjura ou exorcisma, por catarse, do corpo do espectador.

2 — Ao falar de quietismo ou abstenção mística, pressuponho incluída a meditação existencial de quantos, dentro ou fora da ortodoxia cristã, heréticos ou não, se interrogaram sobre a «mal de existir», sobre a «doença de existir».
Todos  os  que,  de   Buda   a   Shopenhauer, de Sócrates a Pascal, de Ésquilo a Nietzsche, de Dostoievski a Chestov, de Santo Agostinho a Kierkegaard, de Kafka a Fernando Pessoa, de Raul Brandão a Camus, repuseram o eterno enigma, reformularam a eterna pergunta, sem nunca ouvirem a resposta, nem por uma ideia, nem por uma crença, nem por um argumento, nem por uma evidência.
Não  houve  promessas   de   outros   mundos,  não houve  paganismos e neo-paganismos, não houve  religiões de igreja e  religiões  de Estado, messianismos políticos e políticos messias, humanismos e humanistas, salvações e salvadores do mundo, não houve evidências, não houve sistemas, promessas de felicidade e cura, o curto ou longo prazo, para este e para o outro mundo, não houve talismãs, técnicas, poderes, ciências, não houve optimistas e optimismo, não houve nada, nada que abafasse a voz trágica, nada que impedisse o homem de temer a morte e desafiá-la, de lhe fugir e para ela fugir, de a tentar e de nela se tentar, nada que explicasse a esfinge, nada que matasse a fome de absoluto, nada que resolvesse o mistério da existência. Nada acalmou nem calou a voz trágica, voz do silêncio, voz das vozes que o homem perdeu e nele se perderam, voz de quando já nada se sabe, pode e quer dizer.

3 — Na tragédia, nada se afirma e nada se nega. Tudo vem do enigma e a ele volta. A tragédia é o campo infinito da interrogação. O campo da liberdade.
Mas fora do teatro, do teatro quimicamente puro que é a tragédia, o homem não deixa de prefaciar a morte, de pensar a morte, de interrogar a morte. Não deixa por isso de falar, de escrever, de, em suma, «fazer literatura».
Esta a única justificação que ainda hoje pode ter a literatura: a de servir de prefácio à encenação trágica, à montagem teatral, à acção do actor. O autor serve o actor.
Fora isto, que motivos, além dos inconfessáveis, pode haver para defender ainda a literatura? Fora isto, que pode ser a literatura além de «cochonnerie» ?

4 - Para Artaud, o teatro nunca poderia ser o que a degradação burguesa fez dele; uma dependência da literatura, da linguagem, da imunda palavra; o teatro, na sua origem, é a tragédia, assim como a literatura, na sua origem, é a poesia.

5 - Quando o teatro procura a sua essência, ou origem ou substância, ou autenticidade, procura-a nas manifestações ditas religiosas de civilizações perdidas e ignoradas da Civilização ocidental e diz-se que reassume o carácter religioso ou de religião, o carácter de comunicação esotérica ou comunicação sem palavras oposta à comunicação exotérica ou literária.
Este (o teatro da morte e do sagrado e do esotérico) é o teatro das trevas, das vísceras e artérias fluindo, do esgar, da mímica, do ritmo e do ritual, da orgia, da dança, da festa, o teatro de Diónisos, o teatro do actor e só do actor.

6 — No conspecto trágico, a morte não é um apêndice, um terminal da vida. No contexto trágico, a morte é outra realidade (outra vida?) que a vida desconhece.
Medianeiro entre uma e outra realidade, é o actor e, por extensão, o teatro. O actor representa a morte. Induz a morte da potência ao acto e do acto ao facto.
O autor trágico pensa a morte. O actor trágico vive a morte. Pensar a morte é ser doente, doente do «mal de existir».
O tempo é para o suicida, o doente incurável, o condenado à morte, o soldado em campanha, para todo o que pensa a morte, enfim, a única realidade.
O tempo é para o autor trágico, para o filósofo existencial (que geralmente escreve diários, talvez no desejo de fazer parar o tempo...), para o místico, para todos os que pensam a morte, enfim, a única realidade.
O tempo é para o actor, que vive a morte, a única realidade
Vivendo a morte, o actor (trágico) vive a liberdade que é a morte.
A liberdade, para ser liberdade, infinitamente se reclama a si própria, até à liberdade das liberdades — a morte.
A   liberdade   é   o   único   absoluto. E só o teatro, na pureza da  sua   origem - a   tragédia – a     representa.  Teatro e morte identificam-se.  Ser   absolutamente  é  a morte de teatro.
Sinónimos   entre   si  -  tragédia,  teatro e  morte são  - também sinónimos  de  alegria,   de   dionisíaca alegria, e os autores trágicos não
são «pessimistas» como diz a crítica,   mas   apenas   isso:  trágicos.
 
7 — A    guerra     sacralizou-se,  na   guerra    está,   segundo    Roger     Caillois,   o  sucedâneo   das   festas,  dos ritos orgiásticos, do coro dionisíaco.   E   no    único,     exclusivo, desmedido  palco do  mundo  esta  ria hoje, realizando-se pelo avesso, a tragédia quimicamente pura, a   essência  do  teatro.
Erguer   pequenos palcos, neste    palco gigante,   parecerá    uma
redundância.  Mas  não  é. É  virar a tragédia para o direito. É passar a ferro e a miniatura o mundo de  hoje.   Ê   o  eco  do  eco  do  eco do  coro  dionisíaco.
«Tempo de excesso, de violências, de ultraje (L’Homme et le Sacré, de Roger Caillois, pág. 230) de alguns homens sobre todos os homens, eis que outra minoria ergue sobre o palco de tábuas a réplica desse excesso, dessa violência, desse ultraje.
Só com a diferença; enquanto no pequeno palco o trágico é de significação individual, no palco da história o trágico é de proporções colectivas e os assassinos não prestam contas a ninguém. Falsos Diónisos, possessos apenas de raiva (Tisífone), de carnificina (Megere), de inveja (Alecto), nada há nessas «erínias que lembre e honre a fúria dionisíaca. Por isso é necessário continuar representando, em palco aberto, o último acto da tragédia, ritual de sacrifício e crueldade em que o homem será a vitima oferendada a si próprio. A encenação está feita, o palco montado, os actores em acção.
AFONSO   CAUTELA




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quinta-feira, março 07, 2013

GIOVANNI PAPINI NA BIBLIOTECA DO GATO-II







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GIOVANNI PAPINI NA BIBLIOTECA DO GATO-I

Escrito por gatodasletras el 17/07/2005 

UM HOMEM LIQUIDADO 
QUE HEI-DE IMITAR

17-07-2005 - Desde «Um Homem Liquidado», que devo ter lido à volta de 1962, quando andava na Biblioteca Itinerante da Gulbenkian (Tavira), o Giovanni Papini não deixou de profundamente me marcar.
Pelo estilo prolixo de escrita, muito próximo do meu prolixo, pelo confessionalismo aberto ou mascarado dos seus livros e, claro, pela temática eleita da «diabologia».
Um místico a entrar no profano, um místico de banda larga que sempre invejei e desejei imitar.
Ainda hoje tenho «Un Uomo Finito» como modelo que gostaria de imitar na minha autobiografia. Ao meu biógrafo, exijo que (me) sublinhe este meu autor de sempre e que continua nas minhas estantes com o logotipo do gatinho verde.
Tenho poucos files que o referem explicitamente mas muito do que escrevi tem a sua inspiração. Os 10 files relacionados vão para os meus arquivos de manuscritos, dactil manuscritos e print de files word.

Há que ver uma coisa: para a crítica literária, Papini foi sempre um autor secundário e talvez por isso, subliminarmente, obedecendo aos ditames oficiais da crítica, faltou-me sempre o imperativo para sobre ele escrever.
Hoje, fica a minha homenagem e o link de referência para o primeiro site que visitei.

É o mínimo que posso fazer como acto de justiça e gratidão a um companheiro de jornada como foi Giovanni Papini.
Dele restam, na Biblioteca do Gato, 5 títulos, em português, agradecendo também à única editora que o tornou acessível em Portugal: a Livros do Brasil.

1. Giovanni Papini – Um Homem Liquidado – Livros do Brasil, Lisboa, s/d *****
2. Giovanni Papini – Gog – Livros do Brasil, Lisboa, s/d *****
3. Giovanni Papini – O Livro Negro – Livros do Brasil, Lisboa, s/d
4. Giovanni Papini – Cartas aos Homens do Papa Celestino VI – Livros do Brasil, Lisboa, s/d
5. Giovanni Papini – O Diabo – Livros do Brasil, Lisboa, s/d

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quarta-feira, março 06, 2013

HENRI LEFEBVRE NA BIBLIOTECA AC

Escrito por gatodasletras em 21/07/2005 |

ECOLOGIA: 
A NOMENCLATURA ESTRUTURAL E ESTRUTURANTE
 




Reencontrei, domingo passado, na Feira das Velharias, em Paço de Arcos, um livro de que já tinha perdido o rasto e que me marcou nos meus anos da Ulisseia como revisor tipográfico: Fevereiro de 1969 é a data da tipografia desse livro: «A Vida Quotidiana no mundo Moderno».
Mas dois anos antes, em 1967, a Ed. Moraes publicava «Contra os Tecnocratas - Acabar com a ficção Científica».
Tenho seis files, pelo menos, com leituras de Lefèbvre, o que me honra e emociona bastante: quero hoje e por isso  mostrar a minha gratidão.
Os files que se encontram publicados na internet são o que de momento posso oferecer a quem tanto devo: basta pensar em duas palavras-chave da minha vida - tecnocrata e quotidiano - e nos três livros que me restam deste meu autor:
1. Henri Lefebvre - Contra os Tecnocratas - Ed. Moraes, Lisboa, 1967
2. Henri Lefebvre - A Vida Quotidiana no Mundo Moderno - Ed. Ulisseia, Lisboa, 1969
3. Henri Lefebvre - O Marxismo - Ed. Bertrand, Lisboa,1974

 

LINKS AC RELACIONADOS:

http://ecologiaemdialogo.blogspot.pt/2009/02/eco-utopia-1970.html

http://catbox.info/big-bang/gatodasletras/lefebvre-2.htm

http://catbox.info/big-bang/gatodasletras/+leituras%20selectas+.htm

http://catbox.info/big-bang/gatodasletras/+cat%20note-book+.htm

http://bookscat.blogspot.pt/2005_10_30_archive.html

http://road-book.blogspot.pt/2006_11_07_archive.html




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JACQUES BERGIER NA BIBLIOTECA AC-II












http://www.jacquesbergier.org/


http://users.skynet.be/thomas/bioberg.htm
http://aquimia.vilabol.uol.com.br/Bergier/
http://users.skynet.be/thomas/citaberg.htm
http://www.evasion.ch/alchimia/Page1.htm
http://users.skynet.be/thomas/bibliojb.htm



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JACQUES BERGIER NA BIBLIOTECA AC-I

 22/7/2005


ELE DIZ QUE NÃO É UMA LENDA

Jacques Bergier marcou-me desde 1960, quando li esse brain-storm de Pauwels e Bergier que continua a ser o «Le Matin des Magiciens». Depois procurei tudo o que ia aparecendo traduzido em português e em brasileirês. Um destaque especial vai para esse estranhíssimo e perturbante livro que se chama ...«Os Livros Malditos», que guardo na edição brasileira da Hemus. Livros sobre livros têm aqui, obviamente, lugar de honra neste  blog.

Convido o leitor a visitar os seis sites que escolhi sobre Bergier, verdadeiramente deslumbrantes e fascinantes. É uma maneira de chamar a atenção para uma das ciências sagradas - a Alquimia - que desde 1992 tenho tentado aprender. Não será Bergier o autor moderno que melhor falou de alquimia mas pode ser uma pista possível entre aquelas que um dia vos irei apresentando.

Registo os 7 títulos de Jacques Bergier que guardo na Biblioteca do Gato:

1.Jacques Bergier - Os Livros Malditos - Ed. Hemus, São Paulo, 1972


2.Jacques Bergier - A Terceira Guerra Mundial já Começou - Ed. Afrodite, Lisboa, 1976
3.Jacques Bergier - Eu Não Sou uma Lenda - Ed. Nostradamus, Lisboa, 1978
4.Jacques Bergier - Visto para Outra Terra - Ed. Arcádia, Lisboa, 1975
5.Jacques Bergier - Os Impérios da Química Moderna - Ed. Hemus, São Paulo, 1973
6.Jacques Bergier - A Volta dos Mágicos - Ed. Hemus, São Paulo, 1973(?)
7.Jacques Bergier - As Fronteiras do Possível - Ed. Verbo, Lisboa, 1971 (?) - Livros RTP, nº 57

Eis os sites dedicados a Bergier, homenagem possível a um dos dois autores do realismo fantástico:
 

http://www.suaaltezaogato.com.br/arq/Estante%20de%20Aco/Jacques_Bergier_%28Os_Livros_Malditos%29.pdf

http://www.evasion.ch/alchimia/Page1.htm
http://users.skynet.be/thomas/bibliojb.htm

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JAMES CHURCHWARD NA BIBLIOTECA AC

Sexta-feira, 22 de Julho de 2005

PISTAS DO MARAVILHOSO

Não é tarde nem é cedo para reconhecer um dos livros e autores que mais me fascinaram: James Churchward, com a sua obra «O Continente Perdido de MU». Escrevi vários files , talvez longos, levado pela vertigem das teses que Churchward propõe.
Podem ser consultados nos meus arquivos de manuscritos, dactil manuscritos e print de files word.
Guardo cinco títulos da sua autoria, na minha Biblioteca do Gato:
1.James Churchward – O Continente Perdido de M U – Ed. Hemus, São Paulo, 1972


2.James Churchward – The Sacred Symbols of M U – Ed. Be Books, Albuquerque - 1987




3.James Churchward – Lost Cities of Ancient – Lemuria & The Pacific – Ed. Adventures Unlimited Press, Stelle, Illinois, 1988



4.James Churchward –M U, Le Continent Perdu – Ed. J’ai Lu, Paris, Col. A 223, 1969

5.James Churchward – L’Univers Secret de M U – Ed. J’ai lu, Paris, Col. A 241, 1970


 Ver mais:

http://www.catbox.info/big-bang/jornaldogato/jc-1.htm
http://www.catbox.info/catbooks/+the-way-pdf+/Jc-1-3-LS.pdf
http://catbox.info/big-bang/jornaldogato/+files-a-z+.htm

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ERICH FROMM NA BIBLIOTECA AC

sábado, 23 de Julho de 2005

ERICH FROMM:
 UM PSICANALISTA MUITO PECULIAR

Agora me lembro: chama-se «O Medo à Liberdade» o primeiro livro que me atraiu para o psicanalista norte-americano da escola marxista, Erich Fromm (1900-1980). É uma edição da editora Zahar, Rio de Janeiro, não sei de que ano (segunda metade da década de 50?) e, desde então, nunca mais deixou de me acompanhar através de correntes e escolas por onde passei ou perpassei.
Perdi (emprestei) o livro mas o livro ficou.
Sei que o li em Beja, quando também os surrealistas me enchiam as leituras até de madrugada. Talvez o ano de 1960 seja a data mais aproximada da minha aproximação ao filósofo que escreveu, entre outros títulos, «Psicanálise e Religião».
Erich Fromm nunca me desiludiu, deve ser o único «psicólogo» e «psicanalista» que não cansa.
Relaciono-o com o meu amigo Romeu de Melo, filósofo que muito estimava também o Erich Fromm.
A convergência da psicanálise com o marxismo não podia deixar de me interessar, de nos interessar, ao Romeu e a mim. E não deixou, ao longo dos anos, mesmo agora que não guardo todas as obras dele que me marcaram, a partir de «Escape from Freedom» («O Medo à Liberdade»).
Uma obra particularmente persiste: «A Linguagem Esquecida», visão mais junguiana do que freudiana (e muito peculiar) dos sonhos. Que felizmente, continuam a ser, por mais que mos expliquem, um dos meus enigmas mais estimados. Rotas do maravilhoso que vou trilhar até Deus me dar vida.

Títulos ainda na Biblioteca do Gato:
1.Erich Fromm – A Linguagem Esquecida





2.Erich Fromm – O Espírito de Liberdade - Ed. Zahar, Rio, 1970


3.Erich Fromm – Psicanálise e Religião – Ed. Livro Ibero-Americano, Rio, 1956 (perdido)
4.Erich Fromm – Ética e Psicanálise – Ed. Minotauro, Lisboa, s/d




O que escrevi à volta de Erich Fromm (ou por ele directamente motivado) pode ser consultado na pasta fromm-ol
nos  meus arquivos de manuscritos, dactil manuscritos e print de files words.

E mais:

http://catbox.info/big-bang/gatodasletras/fromm.htm
http://catbox.info/big-bang/gatodasletras/fromm-1.htm


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terça-feira, março 05, 2013

FRITJOF CAPRA NA BIBLIOTECA AC

sábado, 23 de Julho de 2005
CONVERGÊNCIA HOLÍSTICA NO SEU MELHOR

Data de 5-8-1990 o meu encontro decisivo com o livro «O Tao da Física», de um autor decisivo na convergência holística, Fritjof Capra.
A convergência entre uma sabedoria remota – o taoísmo – e a física moderna, levou-me a escrever (e a publicar) alguns artigos entusiásticos sobre estas leituras, que antecedem de três anos o meu encontro com a hipótese vibratória de Étienne Guillé, síntese de todas as sínteses (a suprema convergência holística entre sabedoria tradicional e ciência moderna).
Convido o leitor interessado nesta aventura a procurar esses artigos (algo polémicos, admito) nos meus arquivos manuscritos, dactil manuscritos e print de words.

Dois sites para os mais curiosos de Fritjof Capra e da sua capacidade para abranger várias ciências e sabedorias:

http://archipress.org/episteme/capra2.htm
http://www.geocities.com/Vienna/2809/Capra.html

Guardo na Biblioteca do Gato três títulos deste senhor:
1. Fritjof Capra – O Tao da Física – Ed. Presença, Lisboa, 1983




2. Fritjof Capra – O Ponto de Mutação – Ed. Cultrix, São Paulo, 1982




3. Fritjof Capra – La Trama de la Vida – Una Nueva Perspectiva de los Sistemas Vivos – Ed. Anagrama, Barcelona, 1996




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PIER PAOLO PASOLINI: UMA HERANÇA DIFÍCIL-II


PASOLINI -I

25-10-1968 - A imprensa aproveitou, há tempo, um poema de Pier Paolo Pasolini, para com ele especular contra o escritor de Os Vádios e contra as ideias progressistas do cineasta de Il Vangelo Secondo Mateo. Destacando uma passagem do referido poema, em que o autor se dizia ao lado dos polícias quando estes enfrentavam os jovens estudantes em rebelião, logo se concluiu que o autor de Una Vita Violenta estava ao lado da ordem contra a subversão.
Lendo o poema na totalidade, ver-se-ia que não era isso: Pasolini estava ao lado dos filhos do povo que, na profissão de polícias, as circunstâncias forçavam a usar de menos bonomia para com os universitários, filhos da burguesia na sua maior parte, e talvez com alguma da arrogância que à sua classe é inerente.
Difícil, por vezes, é distinguir entre essa arrogância e o protesto sincero de um humilhado, de um ofendido, de um vencido e perseguido; difícil é distinguir entre a crítica que se exerce por necessidade e a que se pratica por supérfluo; difícil é, na juventude do nosso tempo, distinguir entre a que faz realmente causa comum com as vítimas da exploração e os que, embora em nome destes, não deixam de ir aproveitando as oportunidades de (em nome também do direito à crítica) ir explorando e cilindrando os explorados de sempre. De ontem e de hoje, pelo menos. Porque amanhã - como diria Pasolini - a ver vamos.

ARROGÂNCIA JUVENIL

A petulância e arrogância juvenis, que muitos censuram e condenam demasiado sumariamente, resulta quase sempre de um abuso no direito de crítica que não foi ganho mas, como tudo o mais, recebido por herança, ou usurpado.
António Sérgio, que ensinou entre nós o exercício da crítica, nos únicos termos em que ela é legítima e fecunda, vai sendo esquecido pelas gerações nascentes que se julgam possuidoras de um direito absoluto só pelo facto de serem jovens. Ora a juventude não confere a ninguém especiais regalias (a não ser as regalias que já estão outorgadas por outras vias ) nem absolve ninguém de erros e abusos. 

A confusão entre as instituições que devem alvejar-se e os indivíduos que devem respeitar-se, parece-me a razão principal dessa impertinente arrogância, que a outros convém diagnosticar de maneira diferente e atribuir a causas outras.
Não se aprendeu a lição de António Sérgio e a confusão entre os alvos que a crítica deve visar, continua. Se a confusão persiste, porém, não há direito à crítica mas apenas o uso arbitrário do juízo arbitrário sobre arbitrários alvos, como um brinquedo mais ou mais um privilégio que o menino-família herdou ou comprou.
Uma recente arrogância entre certas camadas juvenis nascidas na burguesia abastada, tem sido confundida, por vezes, pelos observadores que gostam de confusões, com uma irremediável decadência da juventude e uma revolta "sem causa".
As várias oportunidades que aos jovens são dadas, conforme o estrato social de onde procedem (conforme a classe a que pertencem), determinam o comportamento dos vários e diferentes sectores da juventude, que não pertence toda à classe dominante, que não é toda igual nem se guia toda pelas mesmas directrizes nem apresenta sempre o mesmo padrão de vida e as mesmas vias de desenvolvimento ou subdesenvolvimento.
 

A REVOLTA

O que vem complicar o problema - que se poderia limitar a uma perfeita identidade entre gerações jovens e respectivas classes de onde procedem - é a revolta (que nos filhos das classes da abundância pode manifestar-se) assimilada com a justa cólera das classes sem privilégios.


PASOLINI - II
7/Novembro/1969 - Esta atitude de Pasolini, talvez precipitada ou inconsiderada, para lá de tudo o que tenha de discutível ( e tem), para lá de todos os problemas que levanta de maneira tempestuosa, efervescente (temperatura pouco aconselhável para se discutirem problemas de brecha, de base) , constituiu um belo pretexto para os detractores do escritor de Vida Violenta e do cineasta de Il Vangelo, para os que o consideram um perigoso romântico e um herege sistemático da linha dura do marxismo, da ortodoxia. marxista.
Mas, também, para os que não estão apenas contra Pasolini e as suas posições estéticas ou políticas mas contra aquilo de que Pasolini é exemplo e paradigma: o intelectual que, de origem pobre, nunca deixa de ser uma coisa e outra (intelectual e pobre ) e, em vez de ir para as barricadas ou acomodar-se ao statu quo burguês, se limitou a travar a luta (apenas humanista, não política) da palavra escrita.

Para lá do partis-pris contra Pasolini, o problema que persiste é saber se, de facto, não resta chance, hoje e nos tempos que se avizinham, de que uma posição humanista coexista com outras, de acção directa. Será que, reconhecida a legitimidade inadiável e necessária da violência, devem perecer, pelo suicídio ou pela fogueira, todos quantos, pela palavra e só pela palavra, desejam travar a luta necessária?
Sem dúvida, os jovens das barricadas têm razão. Mas é necessário ter coragem para afirmar e sustentar que não são traidores e são legítimos os métodos menos directos mas mais profundos, menos "engagé" mas mais persistentes, menos imediatos mas mais a longo prazo, que continuam a ser defendidos por intelectuais como Pasolini. Ou Edgar Morin.
ACUSAÇÃO:
O lumpen-proletariat não tem função revolucionária e o elogio, a exaltação que dele faz Pasolini, ou outros como ele ( Gorki, Beckett, Leduc, Sarrazin, Korzinski, Richard Wright) não merece qualquer consideração
DEFESA:
A esta acusação, assim brutalmente formulada, com ar de evidência indiscutível, é difícil responder.
De facto, o lumpen pode não ter qualquer função política positiva. Mas desprezá-lo só por isso é pressupor que nenhuma categoria existe além da política e que tudo terá de se reduzir à política.
A crónica dos vádios de Pasolini, Sarrazin, Genet, Baldwin ou Beckett é a crónica dos desprezados, dos humilhados e ofendidos que, de tal modo alienados desde a origem, de tal modo inconscientes da sua própria condição, nem sequer isso têm como arma de defesa. São os seres menos defendidos do mundo.
E quem diz o lumpen, no sentido estrito, diz todo o oprimido, todo o doente ou anormal, a criança, o velho, a mulher (escrava doméstica), todo o que sofre uma situação de inferioridade, minoria ou perseguição, até ao momento em que se mentaliza e organiza para a luta. Enquanto não luta, no entanto, a sua condição humana (sub-humana, embora) não pode ser desprezada ou menosprezada. E desprezá-la em nome de um imediatismo político, é entrar numa política sem humanismo à qual é preciso opormos todas as nossas forças, e uma resistência pertinaz.
Ora ao artista, enquanto tal, e sem desdizer ou contradizer a sua actuação política, compete cuidar com amor da condição humana, esteja ela onde estiver, mas principalmente se for a condição dos humilhados e ofendidos. Negar isto é participar de uma concepção e actuação que não deixa esperança alguma aos homens. No entanto, há quem o negue, e ao ouvir quem o nega poderá desesperar-se. Felizmente, há também quem prossiga a ingratíssima faina de manter a imagem do homem, em meio da refrega política .
Ainda e sempre, Edgar Morin é o intelectual que hoje se encontra na vanguarda desse movimento. Com todos os riscos que tal posição implica, ele defende, contra o terror, o humanismo .
 
ACUSAÇÃO:
A polícia pode considerar-se um proletariado, mas completamente alienado, sem consciência nem função revolucionária. Um polícia, quando faz a escolha, é culpado. Nada de os considerar inocentes, como parece ter considerado Pasolini quando publicou esse infeliz poema.
DEFESA:
De novo se retoma o grave problema - se vamos desprezar um proletariado porque é alienado, então que fazer?
Alienação não é culpa, mas condição contra a qual, por vezes, não é possível lutar.
Quantas alienações não se verificam ao nível do burguês médio, misto de intelectual bem-pensante, essas sim, bem dignas de desprezo porque o intelectual está consciente delas e a elas se acomoda mais ou menos cinicamente.

Talvez que a confusão reine neste capítulo e a dicotomia proposta por Pasolini esteja viciada desde a base. Mas, equívoco ou não, e tudo o que venha como contra-equívoco, há casos de incoerência entre pessoas que só o poder assumido ainda pela classe a que essas pessoas pertencem permite continuar sem denúncia.
A verdade é esta: sob o critério humanista (a que se chamará romântico, quimérico, idealista - e essas serão as acusações que o franco-atirador terá de suportar) eu estou mais perto de um oprimido, de um humilhado e ofendido, de um vadio, de um "hors-texte" do que de alguns endiabrados meninos burgueses que tão revolucionários se querem e se pretendem.

"La politique mène a tout" - mesmo ao seu contrário. Em tais casos, deveremos estar atentos. Porque então é dialéctico resistir.


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