sexta-feira, fevereiro 20, 2009

POSTULADOS 2012

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10/11/1998

IDEAL CIENTÍFICO OU PRAXIS NATUROLÓGICA? A ESCOLHA É NOSSA: LÉXICO(Palavras-chave directamente ligadas à Naturologia são assinaladas com um asterisco *):

Aleteia (verdade em grego)
Antropológico
Autores citados:
Barreiras dóxicas
Caixa de Pandora
Capacidade homeostática *****
Compacticidade vivencial *
Contemplação
Contexto da descoberta (Karl Popper)
Enciclopedismo *
Epistemológico
Estoicos
Galileu
Ideal científico
Indagação psicanalítica *
Obstáculo epistemológico
Ôntico
Ontológico
Paciência epistemológica *
Paradigma holocêntrico
Pensamento racional
Pressa moral *
Sapiencial
Sofistas
Soteriológico
Virtude*

AUTORES CITADOS:
Albert Camus
Aristóteles
Pitágoras *
Platão
San Juan de la Cruz (la noche oscura)
Santo Agostinho
São Boaventura
São Tomás de Aquino

SUBLINHADOS:
A dimensão trágica do eu.
A verdadeira sabedoria está no Logos
A vida é egofágica
Crença é factor propulsor
Há grande diferença entre o mundo da verdade e o mundo das opiniões.
Nada se perde, tudo se transforma.
Não podemos ser iconoclastas.
O ideal científico é uma categoria móvel
O logos está na base da verdade
O luxo da consciência
O meu presente está condicionado pelo meu passado
O poeta é um fingidor
O psiquismo é dinâmico
Perdemos a noção de que podemos aceder ao real

«Ciência sem consciência é ruína ou calamidade da alma.»
Se Rabelais é o autor deste axioma quase postulado, é caso para ficar a admirar duplamente o escritor de «Pantagruel» - obra monumental e profética da humanidade - tão ignorado dos cientistas mas que estaria mais certo numa história das ideias do que na história da literatura.
O referido aforismo de Rabelais bem pode conduzir-nos, como fio director, na leitura desta lição de Epistemologia.

Parece, de facto, que do ideal científico passámos, ano após ano, década após década, século após século, para o actual chafurdo do irreal virtual e do irracional virtual.
E a questão epistemológica interessante talvez seja esta: a actual abjecção vem na linha lógica e cronológica do ideal platónico - a pureza das ideias - ou resulta de um desvio e de uma perversão desse ideal?
Será o moderno chafurdo uma consequência inevitável dessa pureza inicial do Logos (a que se chamaria, nesse caso, puritanismo), ou aconteceu um processo degenerescente a que todas as civilizações se encontram submetidas? Teria acontecido à civilização helenista o que aconteceu a tantas outras que entraram também no seu ciclo de decadência ?(Vide teoria de Toynbee sobre os ciclos históricos).

OS FRUTOS DA CIÊNCIA MÉDICA

Pelos vistos - e revertendo de imediato à Naturologia - o que parece prudente é não avaliar a verdade pelos seus princípios programáticos - neste caso a caverna do senhor Platão - e avaliá-la antes pelos resultados. Diz a Bíblia dos cristãos: «Avaliarás a árvore pelo seu fruto.»
A Naturologia deverá adoptar este bíblico anexim como seu postulado orientador.
Haverá exemplo mais emblemático do que a Homeopatia? Segundo os esforçados investigadores da ciência oficial, aquilo é uma parlapatice (foi um tal François Jacob, que se diz Prémio Nobel, a lançar o anátema, a convite da revista «Science et Vie», que a D. Isabel Stilweel logo reproduziu, ipsis verbis, na revistinha que dirige, o magazine «DN»).
Segundo a prática milenar (porque a homeopatia não nasceu com Christian Friedrich Samuel Hahnemann (1755-1843) como continua a repetir-se por tudo o que é texto naturológico) , esta terapia resulta e ponto final.
Aliás, vendo um pouco mais de perto o fatídico incidente, o facto de a ciência médica ordinária não ver qualquer valor na pura energia de uma diluição homeopática, apenas assinala a sua triste miopia, aquela mesma miopia que levou outro cretino (Charcot?) a afirmar que nunca tinha encontrado a alma na ponta do seu querido bisturí.
Discordo do meu professor José Alves numa única afirmação sua:
«Não podemos ser iconoclastas.»
Tratando-se de salvar a pele ( e principalmente a alma) acho que não só podemos como devemos ser iconoclastas.
Os idola tribu, do senhor Bacon (Francis ou Roger?), são uma categoria sempre actual da epistemologia. E o nosso dever é derrubá-los. Aos ídolos, evidentemente.

A INDÚSTRIA DA DOENÇA

Por isso, o critério de verdade não é nem tem que ser tão puro como continua a querer-se e em Naturologia teremos que reabilitar o conceito de pragmatismo, caído em desgraça ainda estou para perceber porquê.
Possivelmente porque a doença se tornou rentável, lucrativa e o maior negócio do mundo, superando mesmo o dos automóveis.
Mas, nesse caso, será que ainda vamos falar, a propósito, de ideal científico?...

A SOLIDÃO DOS CRIADORES E O LOBBY MÉDICO-FARMACÊUTICO

O «contexto da descoberta», a que alude Karl Popper, é dúplice e ambíguo: tanto dá para abortar uma ideia genial que irá subverter a estabilidade de um sistema ideológico podre, como poderá, por conveniência interna, gerar uma ideia que seja útil ao mesmo sistema.
O criador isolado, cavaleiro andante na busca do ideal científico, se alguma vez existiu, despareceu completamente do mapa. Ou ficou imortalizado por Cervantes, que lhe contrapôs o pançudo Sancho. Hoje não há, em ciência médica, franco-atiradores, criadores isolados, investigadores austeros no seu covil de pesquisa. E muito menos em Naturologia, assediada por abutres de todos os lados.
Se não for a Epistemologia, com a ajuda da História da Saúde, a estabelecer novas pistas de pesquisa na ciência naturológica, o ciclo vicioso - já apertado - irá apertar-se cada vez mais. E sufocar a Naturologia.
Como o nosso professor fez notar, os obstáculos «corporativos» são, nesse contexto da descoberta, perfeitamente decisivos. Foi a tese, aliás, desenvolvida numa comunicação ao primeiro Forum de Medicina Natural: o regime corporativo que vigorou antes do 25 de Abril e do qual beneficiava a classe médica como principal privilegiada, continua, e ainda mais assanhado, no pós 25 de Abril.
As corporações acabaram e agora chama-se «lobby médico-farmacêutico».
Não há, portanto, «paciência epistemológica » que chegue para aguentar estes anacronismos da vida «científica» que continuam fazendo, para muitos de nós, a vida num inferno, nomeadamente os alunos de todos os graus de ensino. Por isso o nosso professor falou de «pressa moral».
O tempo de guerra acabou e a guerrilha deverá actuar. «Mein kampf» como alguém lhe chamou.
Raramente, este tipo de «adversidade» institucional poderá ser instigadora de criatividade. Como disse o nosso professor e como alguém também poeticamente terá glosado, não sei se Antonin Artaud (1896-1948), se Samuel Beckett (1906-1989), se Albert Camus (1913-1960) : «Tudo o que foi feito de grande, foi para sair de um cul de sac», sinónimo da máxima latina «In dolore partem...», parirás em dor.
O novo paradigma naturológico rejeita esta filosofia ancestral: o parto não tem que ser doloroso, já que a dor surgiu como desvio de uma arte antiquíssima de viver.
Basta olhar como uma gatinha tem os seus gatinhos. Alguma coisa está profundamente errada na espécie humana. E a Naturologia tem obrigação de o descobrir. Urgentemente. E não estou a referir-me só ao parto sem dor, que devia ser disciplina obrigatória nesta escola. Estou a referir uma técnica muito mais alargada da arte de viver que incluísse, obviamente, uma arte de nascer, uma arte de envelhecer e uma arte de morrer.

NÓS, OS VELHOS

A forma simpática como o nosso professor encara a função do velho na sociedade, pode ser um bom princípio para nos aproximarmos, nessa matéria, da sabedoria oriental e para valorizarmos a voz da experiência em vez de só darmos ouvidos à autoridade livresca do magister dixit, do papagaio erudito.
A longevidade, aliás, é um dos dossiês de interface holística que poderão ser propostos à Naturologia nos anos mais próximos. Ou já, dada a urgência da démarche.

ANTROPOMORFISMO: 4ª FERIDA NARCÍSICA/ FREUD NO DIVÃ DO PSICANALISTA

O tema da Queda, sublinhado nesta nossa lição, interessa directamente a Naturologia.
1º - Porque reconfirma a concepção cíclica do universo e portanto os bioritmos
2º - Porque da Queda adâmica às quedas actuais no abismo das várias crises planetárias, a famosa hominização tem sido uma carreira de obstáculos muito interessante como espectáculo
3 - Porque a crise está inscrita nos genes do Logos: e o que temos hoje, decorre apenas do que eles fizeram ontem e anteontem.
Pergunto-me se a terceira ferida narcísica de Freud inclui um surto que Edgar Morin relata, com abundância de citações, no livro «O Paradigma Perdido»: ele não utiliza a palavra mas acho que se pode falar em «antropomorfismo» que, durante milénios, alimentou todos os discursos sobre a vida e a evolução dos seres vivos. O homem sempre de bancada a assistir aos sacrifícios romanos nas várias arenas do mundo onde tem ido como caçador, conquistador, colonizador.
O homem, narcisicamente, sempre se apresentou como o ser supremo da criação, com todo o direito e poder de decidir sobre as outras espécies.
É aqui que a Minhoca pode entrar e que o senhor Freud pode voltar para anotar a 4ª ferida narcísica:
Sem a minhoca, a espécie humana não existiria.
Aliás, não existiria sem os seres mais ínfimos, como as bactérias.
Não existiria sem a clorofila.
Não existiria sem ...
Esta interdependência do Rei relativamente aos súbditos escravos seria uma bela ferida para deixar o tio Freud capaz de cair num divã de psicanalista.

O PEDREGULHO DAS MEMÓRIAS E A MUTAÇÃO ALQUÍMICA

Muito interessante a tese apresentada pelo nosso professor sobre o peso que carregamos às costas, os quilos de pedregulhos que o nosso inconsciente carrega e a que poderíamos, em sentido lato, chamar memórias.
Há hoje duas correntes que têm uma resposta provocadora a essa questão altamente provocante da epistemologia:
- uma é o budismo tibetano da Ordem Nyngma, que afirma solenemente: transmutarás as tuas energias (informações) negativas
- outra é a alquimia da vida ou gnose vibratória de Etienne Guillé, que fornece todos as ferramentas para a transmutação alquímica diária (transmutação das energias, informações ou memórias que carregamos às costas).
O «psiquismo é dinâmico» como afirma o nosso professor mas tem que ser...dinamizado ou, em linguagem mais apropriada, alquimizado.
Técnica esta que, evidentemente, se distancia anos-luz das técnicas psicanalíticas, devendo identificar-se muito mais com a tradicional cura iniciática.
As técnicas modernas reforçam o ego e portanto «a dimensão trágica do eu», enquanto a cura iniciática se destina essencialmente a dissolver o ego, raiz de todos os dramas e ranger de dentes...
A vida só é egofágica, voraz e egoísta, no contexto de «ignorância» em que nos encontramos, geração após geração. Ignorância a que o budismo chama «avidia».
Se perdemos hoje a convicção de que é possível aceder ao real - como se afirmou durante a lição - a resposta está, talvez, na ciência noológica (a criar) ou ciência das energias.
Se a energia não é o real, então todo o universo, toda a criação será uma imensa ficção e a vida um pesadelo dentro de outro pesadelo.

METABOLIC MEDECINE = ALQUIMIA ALIMENTAR

Metabolizar memórias (sacos de pedregulhos) seria a démarche que a Naturologia deveria incluir numa cadeira de ...medicina metabólica ou - porque não? - na cadeira de Bioquímica, aquela que na nossa escola mais perto se encontra de abrir as janelas à Alquimia.
E, portanto, à transmutação das energias.
Ver o tratado básico desta alquimia da vida, desta transmutação energética, nas seguintes obras de fundo:
C.L. Kervran - «Transmutations a Faible Energie» - Ed. Maloine - Paris, 1972
Michio Kushi e Edward Esko - «The Philosopher's Stone» - Ed. One Peaceful Worl Press - Massachusetts - 1994
Etienne Guillé e Christine Hardy - «L'Alchimie de la Vie» - Ed. du Rocher - Paris - 1983
Etienne Guillé - «Le Langage Vibratoire de la Vie - L'Alchimie de la Vie» - Ed. do Rocher - Paris - 1990

LIBERDADE DE ESCOLHA PARA O PACIENTE

Os conceitos de conhecimento sensorial e conhecimento intelectual, bem como o tema dos órgãos dos sentidos, são uma noção posterior ao Logos.
A única coisa a dizer numa perspectiva naturológica é esta: se o Logos nos tem governado e muita gente dele se governa, pois deixem estar o Logos. Não queremos estragar o emprego a ninguém. Mas o que se torna imperioso são alternativas a essa «ditadura» - umas vezes suave, outras vezes sangrenta - do Logos sobre a espécie. E que o princípio da liberdade de escolha não seja coagido.
«Liberté, couleur d'homme», parece que disse o poeta Paul Éluard (1895-1952) : embora a liberdade seja mais um mito do que um ideal, mas fica sempre bem, em regime de ditadura médica, invocar esse ideal.
Se - como afirmou o nosso professor - o Logos está na base da verdade, como iremos desembaraçar-nos do Logos sem ficar anatematizados como «mentirosos»?
Como dar a volta à ditadura do Logos sem ofender ninguém?
Talvez revalorizando a «doxa» que tão caluniada parece ter sido pelos detentores da «episte».
Não sei porque «aproximações contingenciais à verdade» não possam ser tão aceitáveis como a verdade absoluta da episte (que ainda por cima continua em eterna discussão se será assim tão absoluta).
Temos outra vez o exemplo da «homeopatia»?
A verdade absoluta dos absolutistas da ciência decreta que homeopatia não presta.
Mas a aproximação empírica, vivenciada, experimental e dóxica prova que resulta. De modo e maneira que vou rejeitar a doxa ( que me podia curar) e aceitar a episte (que me deixa morrer)?...
Anote-se ainda: Sofísticos, hoje, são os argumentos dos alegados cientistas e não os dos que assumem uma «doxa» empírica ou opinativa.
Uma das coisas que se pode aprender com a gnose vibratória de Etienne Guillé é que vale mais ter poucas certezas - poucas mas boas - do que muitas crenças, opiniões e teorias. Crenças, opiniões e teorias - tudo «cosa mentale» - leva-as o vento. Certezas estão inscritas no ADN molecular.

A ESTRUTURA GEOMÉTRICA DO ESPÍRITO HUMANO

Questão muito interessante e polémica levantada pelo nosso professor: «A estrutura matemática do espírito humano», defendida por alguns patriarcas da inteligência humana: Pitágoras , Santo Agostinho, São Boaventura .
À Naturologia interessa desde já, neste tema vastíssimo, saber que uma das 12 ciências sagradas - a Kaballah - tem que ser reconstruída (reconstituída).
E que as matemáticas modernas nada têm a ver com isso.
Aliás, muito linearmente, aconteceu o mesmo naquilo que podemos chamar a santíssima trindade da degradação (da Queda em sentido bíblico):
1 - A Alquimia degradou-se em Química
2 - A Astrosofia (ou Cosmobiologia) degradou-se em Astrologia kármica das feiras do oculto e etc
3 - A Numerosofia degradou-se em matemáticas modernas.
A Magia degradou-se em Medicina.

Um bom tema, este tema da queda, para a epistemologia, companheira de jornada da Naturologia.
Muito interessante este desafio: O Logos será ou não a famosa estrutura matemática e geométrica do espírito humano?
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17/11/1998

A IRRACIONALIDADE DA RATIO MÉDICA

LÉXICO HOJE OCORRENTE(Palavras-chave directamente ligadas à Naturologia são assinaladas com um asterisco *):

4 elementos da matéria *
Antropológico
Aritmolatria *
Axiomas
Ciência dedutiva
Ciência indutiva
Coincidentia opositorum
Hipótese *
Índice fiduciário epistemológico
Inteligência artificial
Mentalidade ideográfica *
Obediência computacional
Objectualidade
Racionalidade logarítmica
Realismo ingénuo
Res cogitans
Res extensa
Subjectividade
Universo *

AUTORES CITADOS:

Aristóteles
Descartes
Francis Bacon
Galileo
Giuseppe Ruggieri
Laplace
Newton
Nicolau de Cusa
Platão

SUBLINHADOS DESTA LIÇÃO:
A natureza é matematizável
Adequatio mente rei
Cogito ergo sum (o princípio do fim)
In uno multiplo verteri
O cogito está na origem do radicalismo racionalista
Razão torna-se autofágica
Vida contemplativa - ideal dos estóicos
Visão literatista do ensino

A irracionalidade da ratio médica (aquilo que a medo se vai incluindo na palavra «Iatrogénese») dá, hoje em dia, um bom exemplo concreto e infelizmente quotidiano daquilo que foi abordado na nossa aula como abstracção epistemológica : a irracionalidade da ratio em geral.
Ao enquadrar a ratio no quadro das 5 virtudes dianoéticas de Aristóteles, a epistemologia quase encontra maneira de desculpar, justificar e perdoar o rosário de crimes que hoje são imputáveis à ratio em geral e a algumas ratios em particular, nomeadamente as que mexem com as ciências que usam o prefixo «bio».
Os desmandos da ratio biocrática têm sido de tal ordem, que vieram uns senhores excepcionalmente bem intencionados ( de bem intencionados está o Inferno cheio) e criaram a Bioética.
No quadro das 5 virtudes dianoéticas aristotélicas, só uma poderá merecer alguma perplexidade, não pelo termo grego NOUS mas pela tradução em português, INTELECTO, que cheira muito a irracionalidade do cérebro direito.
Das 5 virtudes, a SABEDORIA - talvez por estar no meio das cinco - será a que merece melhor aceitação por parte do estudioso de epistemologia orientado para a Naturologia . Sabedoria , de facto, invoca a virtude do meio termo, entre Ciência e Consciência. Vale a pena repetir com Rabelais: Ciência sem consciência é ruína da alma.
Ciência médica sem consciência é ruína da vida.

EM DEFESA DO PREFIXO «BIO»

A propósito, valia a pena então defender o estudante universitário, alvo e vítima privilegiada das irracionalidades demenciais de todas as ratios ditas científicas. A maior razia, de facto, é feita no cérebro dessa amada juventude, que assim fica pavlovianamente condicionada para seguir no trilho que ao sistema mais convém. Só pela autoreprodução continuada o sistema se consegue manter. Autofagicamente mas manter.
Peço desculpa ao nosso professor José Alves mas o facto de haver, excepcionalmente, alunos que conseguem ser «bons» no meio de um sistema aberrante, não significa muito em abono desses alunos e muito menos desculpa o sistema. Se eles conseguem ser brilhantes - como assegurou o nosso professor - é porque, com certeza, gastaram a maior parte das suas preciosas bioenergias para adequar-se às besteiradas do sistema.
Para encornar em vez de pensar.
Para atrofiar uma parte do cérebro e hipertrofiar a outra.
Para fazer do seu precioso potencial vibratório de consciência um bidom de informações maior do que a Internet .
O que hoje se exige de um estudante universitário é que tenha uma memória maior do que a Internet: o que, em pleno império da dita, é algo de patológico. Para não dizer que é criminoso. Só que para estes crimes não há tribunal.
Em Maio de 1968, fecharam o que podia ter sido um tribunal para este tipo de criminalidade.
Os estudantes que se rebelaram e rebelam, querendo fazer uso da «mentalidade ideográfica» em que muito oportunamente falou o nosso professor, de certeza que foram ou serão esmagados.
Esmagados e postos «knock out», ou seja, fora do sistema, fora da sociedade, fora do sistema de emprego. Serão toda a vida desempregados do sistema, o que não é honra nem desonra mas apenas uma grande chatice.
A «mentalidade ideográfica» é o que sempre quiseram e continuam a querer alguns franco-atiradores, mas sem grande êxito prático. Toda a pedagogia escolar enfia milhões de alunos todos os anos naquilo que é o inverso (perverso) dessa mentalidade ideográfica.
No nosso curso de Naturologia Holística - onde, evidentemente, a «mentalidade ideográfica» deveria ser a única mental, tecnica e moralmente autorizada - passa-se exactamente o inverso do que devia ser: não é por culpa de ninguém, nem de professores nem de alunos. É a culpa do tal sistema, que é hoje, mais do que nunca, global e totalitário. Os jornais falam hoje muito de «globalização»: devem querer dizer que quando o barco se afundar, vamos todos, responsáveis e não responsáveis pelo afundamento, vamos todos ao fundo.

OS ALFABETOS SAGRADOS

Se ainda há palavras lindas numa língua profanizada como a língua portuguesa, UNIVERSO é com certeza uma delas. E valia a pena saber em que nível de frequência ela vibra.
Universo é o uno do diverso: só por si a definição da palavra holística. A palavra «holística» já era corrente na astrologia medieval. O latim «In uno multiplo verteri» tem, evidentemente, outro sabor e não é o mesmo que a sua tradução em português, «verter o múltiplo no uno».
Como teckne não é o mesmo que arte, episte não é o mesmo que ciência, fronesis não é o mesmo que sabedoria, sofia não é o mesmo que sapiência, nous não é o mesmo que intelecto.
Traduzir é sempre trair.
Recorrer às palavras latinas - como o nosso professor tantas vezes faz - não é mero artifício académico ou didáctico: corresponde a uma profunda ressonância das nomenclaturas que se encontram mais próximas da origem, o que é o caso do alfabeto grego e do idioma latino.
Diga-se, no entanto, que três únicos alfabetos se podem hoje considerar sagrados: o sânscrito, os hieróglifos egípcios e os ideogramas hebraicos.
Uma coisa isto prova: a famigerada dicotomia, hoje em voga, entre letras e ciências - como se se estivesse a separar o trigo (ciências) do joio (letras) - , vem de longe e tem raízes. A coisa começou a aquecer, de facto, quando os alfabetos mais próximos da língua primordial começaram a cair em desuso. «Língua morta» foi o anátema lançado ao Latim. E pronto. Enterrou-se o cadáver e foram todos muito contentinhos da silva para uma de ciência experimental.
Já espreitava a nova e segunda babel das linguagens particulares, das cifras indecifráveis, dos códigos secretos só para eleitos. Basta dar uma vista de olhos pelas nomenclaturas do nosso primeiro ano - bioquímica, biologia celular, botânica, anatomia, farmacognósia - para compreendermos perfeitamente onde a ratio virou a pura irracionalidade.
Onde a Alquimia se degradou em Química e Bioquímica.
Onde a Kaballah e a Numerosofia pitagórica se degradou em matemáticas «superiores».
Onde a Física das Energias ou Noologia se degradou em Física atómica ao serviço da destruição maciça e individual.
Onde a Alquimia da Vida e a Magia se degradou em biocracia médica das transplantações e da Iatrogénese.

A lógica performativa tem a sua arma principal nos códigos secretos das especialidades: ao corpo de elite - guarda pretoriana - que vigia policialmente esses códigos (e os faz render chorudos lucros) chama-se corpo de especialistas, cientistas, investigadores, etc. Ou, de um modo geral, «comunidade científica», entidade a que todos, regra geral, tiram reverentemente o chapéu.
A vantagem de um curso universitário para um homem vulgar, nem demasiado esperto nem demasiado estúpido, é colocar na frente desse homem vulgar a figura do seu Inimigo Principal.
Por acaso, a famigerada «língua morta» que é o Latim, volta a galope aos escaninhos dos nobres cientistas quando querem baptizar, com nomes de rigor - universais, digamos assim - as espécies vivas. Mas nessa época dos nomes latinos dados aos nossos irmãos animais e às nossas irmãs plantas, ainda a ciência não tinha entrado na demência paranóica e paroxística a que chegou hoje. Dividindo, dividindo, dividindo para continuar reinando.

ANTES DA VERGONHA MODERNA

A taxinomia (ou taxonomia) das espécies continua a ser um bom exemplo de que nem sempre a Ratio conduz à irracionalidade demencial. Aliás, se há época em que apesar de tudo a ciência ainda não tinha mostrado as fauces e em que pacificamente se podia filosofar sobre a ciência sem vomitar, é esse fim de século passado, em que imperou a «filosofia científica».
Quando quero ler discursos sobre a ciência sem me envergonhar de pertencer à espécie humana, vou aos meus queridos autores: o biólogo Pierre Lecomte de Nouy (1883-1947), o biólogo Félix le Dantec ( 1869-1917), o cirurgião e fisiologista Alexis Carrel (1873-1944), A. Dastre, Maurice Vernet, Paul Gaultier (que dirigiu na Flammarion a preciosa Biblioteca de Filosofia Científica), Maurice Pradines, Emile Boutroux, Alfred Still, Georges Lakhovsky, Luiz Buchner.
Ou mesmo Charles Darwin e Ernesto Haeckel, cujo aspecto mais detestável é terem parido uma ninhada de epígonos que nos têm moído a paciência neste século e principalmente neste fim de século em que, à conta da aceleração histórica, tem acelerado também a irracionalidade neurótica e psicótica da tal ratio.
Dos nomes acima enunciados, a maior parte não merece a honra sequer de figurar nas enciclopédias do sistema.
Este gueto das enciclopédias é um episódio muito curioso da telenovela chamada «irracionalidade da ratio».
Um indesejável da ciência será sempre excluído das ditas enciclopédias, que fazem e desfazem reputações, um pouco ao estilo das sondagens, best sellers e prémios mais ou menos Nobeis.
Podíamos elencar (como diz a nossa querida professora de Botânica) uma lista desses nomes indesejáveis e provavelmente iríamos lá encontrar o melhor lote de epistemologistas. Crítico radical da ciência não irá nunca parar às enciclopédias do sistema. Já dizia a minha avózinha e tinha toda a razão.
A menos que lhe seja dado, por engano, o Prémio Nobel (é o caso de Alexis Carrel, esse patriarca da Biomedicina ) ou por qualquer outra ocorrência do acaso, cientista crítico da ciência vai para o gueto do silêncio.
Enquanto não meterem o Etienne Guillé nas enciclopédias e no chafurdo da Internet, vou dormir tranquilo.
No dia em que tal acontecer, é porque já mudou muita coisa e a ratio começou a recuar nas suas traquibérnias de irracionalidade.

PONTO DE VIRAGEM

Falando das armas que a ratio tem à disposição para se tornar irracional até dizer basta, uma outra, citada na aula, deve ser sublinhada: a «aritmolatria» ou idolatria do número ou a sacralização do número, dá pano para mangas. Encurtando razões, basta lembrar que essa aritmolatria é a degradação moderna da numerosofia pitagórica e que a classificação do Roger Bacon ( 1214-1294) sobre os idola tribu já previa essa e todas as idolatrias modernas da Ratio em desvario.
Vale a pena voltar a esse monge franciscano do século XIII, mesmo que não tenha sido ele que falou dos «idola tribu»... A reabilitar, como parece que está a ser reabilitado o cardeal e bispo Nicolau de Cusa (1401- 1464). Esta reabilitação do Nicolau, no entanto, pode levar água no bico, já que, segundo uma enciclopédia, ele teria sido, com a sua cosmologia infinitista e anti-aristotélica, o precursor das concepções da física moderna.
A ratio moderna tem sempre uma avidez canina pelos tenros precursores, nomeadamente se bispos e cardeais, pois bem precisa de se enfeitar com transactas glórias.
A propósito de precursores recuperados pela moderna intelligentzia, um caso a estudar com afinco pela epistemologia e que diz directamente respeito à medicina holística que um curso de naturologia preconiza, é o de Fritjfof Capra, com duas obras em língua portuguesa e os editores já a disputar os direitos de o publicar: «O Tao da Física» ( Presença, 1989) e «O Ponto de Mutação» (Cultrix, São Paulo, 1982) são dois títulos de leitura obrigatória num curso de Naturologia: o primeiro - «The Tao of Phisics» - porque um físico atómico se presta ao papel de vir dizer que no taoísmo já estava dito tudo aquilo que a física moderna veio a descobrir com grande estrondo de foguetes; no segundo título, - «The Turning Point», conspecto histórico das doutrinas que nos levaram da racionalidade à irracionalidade, podemos encontrar aberta a porta para entrar no paradigma holístico e ocuparmos lá o lugar a que temos direito. Como estudantes de Naturologia mas principalmente como seres humanos.
Qualquer dia já temos o Fritjof Capra nas enciclopédias. Por enquanto e apesar de eminente físico atómico, continua de quarentena. Por enquanto só o cineasta Frank Capra está em todas...
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LIÇÃO DE 18/11/1998: O REGRESSO DO BOM SENSO
E AS INQUISIÇÕES MODERNAS/LÉXICO:

Austeridade da razão
Bios teoreticus
Diferencialidade *
Intuição platónica
Temporalidade
Topografia interior

AUTORES:
António Machado (1875-1939)
Blaise Pascal (1623-1662)
Giordano Bruno (1548-1600)
Helmut Plesner
Max Weber (1864-1920)
Platão(427 a C- 347 a C)

SUBLINHADOS:

In errore aliquid veritatis.
Não é razoável que eu me mate de tanto pensar.
Não há coisa mais perigosa do que não fazer o que tem de se fazer no momento em que as coisas têm de ser feitas.
O homem é uma excedência de sentido
O homem nunca coincide consigo mesmo
O homem precisa do outro
O homem vive num permanente fieri
O pensamento atropela as palavras
O sonho impulsiona a vida
O universo fica sem centro
Vida é abstracção, o que há é seres viventes.
Vivido está, vivido sou.

19/ Novembro/1998 - Razoabilidade será a primeira palavra a sublinhar nesta nossa lição de Epistemologia.
Palavra à qual eu gostaria, desde já, de contrapor um dos seus termos adversos: livresco. A ratio, hoje, tomou o freio nos dentes, principalmente na área institucional onde está mais à vontade para exercer o seu despotismo nem sequer iluminado.
Essa área é a escola, nomeadamente a escola dita superior, onde a neurose livresca atinge as raias do perfeitamente obsceno.
A razoabilidade, em vez do livresco dominante, é o que tem faltado à medicina moderna e, por isso, chegámos aos apuros de insensatez, que Ivan Illich (1926- ), no seu livro «Nemésis Médicale», definiu de modo lapidar: «A medicina moderna produz mais doenças do que as que diz curar.»
O termo razoabilidade que a epistemologia sugere, já se contém afinal em duas coisas do conhecimento vulgar e empírico: o bom senso e o senso comum, qualquer dos dois menosprezado pela classe intelectual e por todas as classes no poder.
A insensatez, pelos vistos, é extremamente rentável para o poder, nomeadamente o poder universitário em geral e o poder médico em particular.
Michio Kushi, nos seminários que deu em Portugal, quando as pessoas se mostravam atrapalhadas com o yin-yang alimentar, respondia pura e simplesmente: deixem-se guiar pelo bom senso, bússola para viajar no quotidiano. O bom senso, claro, inclui intuição, instinto e imaginação. E uma enorme paciência epistemológica para aturar os livrescos de todos os matizes e a irracionalidade de todas as ratios.
Não me admiro nada que essa neurose do livresco fosse a última besta do Apocalipse, coma as profecias avisaram.
A razoabilidade inclui todos os parâmetros que a psicologia viria a dividir mas que, inicialmente se encontravam unidos no coração humano: intuição, instinto, imaginação, sentido lúdico, emoção, sonho, experiência vivida, praxis existencial, concreto quotidiano, coisas que se foram perdendo, não só porque o império da razão ainda é mais destrutivo do que o império dos sentidos, mas porque as condicionantes sociais exercem uma enorme pressão para artificializar a vida quotidiana: o mercado gira sobre artefactos, não o esqueçamos. Artefacto e artifício andam perto.
Pedindo desculpa deste registo psicologista ao nosso professor José Alves, valia a pena perguntar porque é que a epistemologia, como ele já deu a entender, minimiza o registo psicologista e o registo sociológico. Parece haver um certo ciúme entre especialistas de diferentes ciências...
E o registo antropológico, sempre aqui tão dominante?

PENSO, LOGO NÃO EXISTO

Quando o professor nos diz «vivido está, vivido sou», está a dar-nos a afirmação inversa do cartesiano «cogito». E está a aproximarmo-nos de um registo existencial/existencialista, que a epistemologia académica também parece não admirar lá muito.
Das componentes que integrariam a razoabilidade, destaco uma que me parece problemático lá meter: a do irracional. O irracional tem conotações que podem ser politica e antropologicamente perigosas. Mais cauteloso é falar de a-racional.
Sem esquecer que o irracional já é uma derivante semântica do racional: é como se o racional se quisesse continuar a impor pelo seu contrário. É como se o racional fosse a parte positiva e simpática e o irracional fosse a face caótica e antipática. É como se entre racional e irracional não houvesse terceiro termo ou alternativa.
Quando um belo dia o senhor Gyorgy Lukács (1885-1971) acordou mal disposto e começou a acusar de «irracionalismo» o individualismo de Nietszche e de este ser o responsável pelo totalitarismo nazi-fascista, estava a fazer uso (e abuso) dessa ambiguidade que a palavra irracionalismo carrega.
Só o escritor e filósofo francês Gabriel Marcel (1889-1973), anos mais tarde, viria a pôr ordem nesta bagunça de inspiração marxista-leninista, chamando aos bois pelos seus nomes e responsabilizando a neurose tecnocrática pelos crematórios nazis.
A razoabilidade não precisa de ser irracional nem racional mas apenas o que é: razoabilidade.

O DIREITO À DIFERENÇA

A registar também nesta lição com vista ao horizonte naturológico do ano 2000, é a diferencialidade ou «direito à diferença» como os ecologistas dos anos 70 proclamaram e como o sociólogo e filósofo marxista Henri Lefèbvre (1901- ), numa abertura rara em marxistas, escreveu no célebre «manifesto diferencialista».
Aí está um princípio - o diferencialismo - que continua no limbo da utopia, quando a massificação está a atingir o ponto de saturação e de não retorno. Nada impede que os ecologistas continuem a ladrar no deserto e a defender o «direito à diferença». Se formos a ver, é um direito que não está inscrito na Constituição da República mas nas impressões digitais de cada um. O que até serve para borrar o dedo no Arquivo de Identificação, único momento em que a sociedade se interessa pela nossa inviolável identidade.

AMAR SEIS VEZES (MENSAGEM DA ESFINGE)

Quando se inclui o amor na razoabilidade humana está-se a meter o rossio na betesga. O amor tem para os egípcios, na mensagem da esfinge, uma sêxtupla valência. Tudo indica que os hierofantes foram os únicos a saber o que era isso.
Nas sociedades ocidentais, que usam e abusam da palavra amor - assim como agora se usa e abusa da palavra «espírito» - vê-se bem com que ignorância o fazem.
Amor seria a emergência total e global de todo o potencial vibratório humano no dia em que o ser humano desenvolver todo esse potencial.
Amor poderia ser, em alquimia básica da vida, sinónimo de pedra filosofal.
O que, não sendo impossível, continua no entanto um pouco distante...

DISCORDÂNCIAS

Peço desculpa ao professor José Alves de uma discordância : «o aspecto exterior será ou não negligenciável?».
Respondo por mim: acho que é totalmente negligenciável. E enganador. Se há arte que os artifícios e artefactos da sociedade consumista/hedonista conseguiram requintar é a arte do disfarce, da cosmética, da aparência de santo com coração de crocodilo.
O que nunca engana para um observador preparado é o seu «aspecto» energético, aquilo a que os gurus de hoje em dia chamam «aura» e outras parlapatices.
Imagem energética de cada qual, essa sim, é que não é nada negligenciável para quem tenha que se defrontar, como terapeuta, com as dissimulações mais habilidosas a que a doença pode conduzir o ser humano em sofrimento.
Outra discordância: a conotação pejorativa com que se falou do trabalho físico e até do trabalho intelectual. Há efectivamente uma foçanguice no trabalho mas ela faz certa diferença do trabalho por necessidade e do trabalho escravo sobre o qual se erguem os esplendores das nossas tão queridas democracias.
«O Elogio da Preguiça» é um ensaio muito curioso de Paul Lafargue que os ecologistas dos anos 60/70 também puseram em voga. Na Segunda Idade de Ouro que está a nascer, não é a preguiça nem o trabalho a dominar mas a emergência criadora do ser humano, que é, aliás, bastante trabalhosa.
Interrogo-me sobre uma enorme dúvida que o nosso professor vai, com certeza, esclarecer proximamente. Havendo, no seu discurso, uma série de palavras aparentemente sinónimas, será que o são mesmo ou representam variantes significativas do mesmo?
São essas palavras:
Fronesis
Intelecto
Logos
Mente e mental
Nous
Pensamento
Ratio
Razão
Gostei de saber que o capitalismo nascera com o calvinismo e que foi autor da tese o respeitável sociólogo alemão Max Weber ( 1864-1920).
Se a ciência moderna parece virada para aquilo que desprezou e muitas vezes condenou à morte ou à masmorra - o Cosmos - e se Giordano Bruno (1540-1600) e Blaise Pascal ( 1623-1662) se encantaram com os espaços infinitos, ocorre que tudo isso se afigura um esforço de cosmética do racionalismo.
Temos de lembrar que o apelo à unidade é hoje a heresia mais perseguida no seio da comunidade científica. O que torna a abordagem holística de uma quase sobrehumana dificuldade, como facilmente se pode constatar nesta Escola de Naturologia.
Dividir para reinar continuará a ser o lema do poder e do establishment.
A Biocosmologia - interdependência entre micro e macrocosmos - é totalmente ignorada da ciência moderna e da ciência clássica, porque pura e simplesmente separou o micro do macrocosmos, fazendo disso a sua glória suprema.
Foi o momento de a Astrologia tomar o lugar que a ciência não quis nem soube ocupar.
Biocosmologia ou Cosmobiologia, queira ou não a ciência, é para aí que tudo caminha. O resto são fantasias quânticas de especialistas quânticos com medo de perder o emprego.
Unir o céu à terra seria a grande heresia no seio da ciência. Se Giordano Bruno foi parar à fogueira, o que poderia acontecer hoje quando as inquisições «soft» se tornaram mais sofisticadas e eficazes do que nunca?
+
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LIÇÃO DE 2/11/1998

AS TEORIAS DA VIDA E AS TEORIAS CONTRA A VIDA/ LÉXICO DESTA LIÇÃO:

Convencionalismo
Fixismo *
Homo logaritmicus
Intellectus = intus + legere (capacidade de harmonização dos contrários) *
Metafísica
Noosfera *
Polisemia difusa
Ratio inveniendi

AUTORES CITADOS NESTA LIÇÃO:

Charles Darwin
Edouard le Roy
Gabriel Garcia Marquez
Gaston Bachelard
Henri Poincaré
Jean Marie Domenach
Karl Popper
Lamarck
Nicolau de Cusa
Pierre Maurice Marie Duhem (1861-1916)(«Teoria Física» )
Pierre Teilhard de Chardin («O Fenómeno Humano»)
René Girard
S. Boaventura
Santo Agostinho

SUBLINHADOS DESTA LIÇÃO:

A metafísica funciona como arma secreta do espírito humano.
A nobreza ontológica do homem em relação aos demais seres.
A verdade está na ponta do bisturi ( positivismo)
As teorias são apenas convenções
As teorias são fruto da imaginação
Cemitério, lugar de vida
Ipsum verum factum est (É no fazer que está a verdade)
Nada se perde, nada se cria, tudo se transforma
Nullus effici beatus nisi supra semetipsum ascendat( ninguém se torna feliz se não se superar a si próprio) - S. Boaventura
O fetichismo dos dados
O homem é um ser axiotrópico
O homem tem uma forte tendência para a cafrealização
O índice incoativo da inteligência animal
Os valores brotam do coração

3 / 11/1998 - O convencionalismo de Jules Henri Poincaré (1854-1912) e Pierre Maurice Marie Duhem (1861-1916) tem consequências que só modernamente se podem avaliar em toda a sua extensão e gravidade.
A adequabilidade
a verosimilhança
a aceitabilidade
de uma teoria podem levar (e têm levado) a todas as loucuras.

Um problema prévio deve, no entanto, ser levantado, ao falar de teorias e do carácter «convencional» das teorias.
Mais uma vez, percorrendo uma relativamente vasta bibliografia, verifica-se que a epistemologia - e os epistemólogos mais em destaque - ocupam-se normalmente das ciências físicas, enquanto as ciências humanas e as ciências biológicas parecem estar ausentes das suas (deles) preocupações.
O que não deixa de ser estranho e, para um curso de Naturologia, trágico.

OS 4 CANCROS MODERNOS

Em ciência da vida (a chamada bio-logia) onde a devastação operada pelo chamado método científico tem sido total, há um silêncio de morte por parte dos críticos, analistas e epistemólogos.
No entanto, é nas ciências da vida (a chamada bio-logia) que os 4 cancros modernos do método científico têm proliferado de maneira incontrolável:
a) o cancro da nomenclatura, sempre em escalada logarítmica para a supercomplicação
b) o cancro do especialismo , sempre em escalada logarítmica (inflacionária) para o super-especialismo
c) o cancro das teorias que, exactamente pela sua verosimilhança, adequabilidade e aceitabilidade são, em ciências da vida, as mais perigosas.
d) o cancro das bibliografias exaustivas que ninguém jamais consultou ou consultará.

A do evolucionismo, única teoria das ciências da vida que os epistemólogos costumam citar, é uma delas: o evolucionismo é totalmente falso, do princípio ao fim, no entanto granjeou o apreço das massas e das elites exactamente porque se baseia numa certa «racionalidade», como observou o nosso professor.
«A Origem das Espécies», que , segundo as más línguas, foi livro de cabeceira de Hitler, Mussolini e parece que de Estaline (se acaso eles sabiam ler), adequa-se perfeitamente à praxis da luta de classes do bloco de Leste e à maratona capitalista do competitivismo do bloco ocidental. A sociedade que tem nas olimpíadas o seu símbolo mais carismático e a sua dinâmica razão de ser, tem no evolucionismo a sua religião de chambre e no Charles Darwin o seu guru.

Mas nem só o evolucionismo tem permitido à Biocracia moderna legitimar alguns dos seus crimes mais monstruosos e hediondos. Há mais :
a) A teoria microbiana do senhor Louis Pasteur, que ele próprio repudiou no fim da vida;

b) A teoria do vírus, de um senhor que não foi mas bem podia ter sido Luc Montagnier, cuja equipa do Instituto Pasteur inventou dois vírus da sida (e que também já veio desmentir-se em público).

Um caso interessante é o da teoria da hereditariedade, obviamente uma teoria que corresponde a factos ( e deixa por isso de ser teoria) mas que levou a medicina a adoptar um dos seus pilatismos mais usuais com que tenta legitimar a sua monumental ignorância: quando não sabe ou não lhe convém saber a causa causal ou ambiental (exógena ou endógena) de uma doença, manda as culpas para a hereditariedade, o que é, além do mais, uma lapalissada de todo o tamanho: todas as doenças, em princípio, são e não são hereditárias.
A sofisticar este gesto de pilatos veio a teoria genética: hoje a genética transformou-se num catálogo de doenças, no qual catálogo a ignorância médica encontra sempre um produto que lhe convém para explicar as doenças inexplicáveis (leia-se aqui que doenças inexplicáveis, para a medicina, são normalmente as doenças que ela produz, pelo fenómeno igualmente ignorado da iatrogénese).
Com a ajuda sempre diligente da comunidade científica, que de mafiosa não tem nada , a sociedade lá vai triando as teorias da vida que interessam aos seus objectivos de morte e aos objectivos de uma indústria da doença que logaritmicamente se ocupa hoje unicamente em aumentar os lucros.
Esquecendo, claro, aquelas que de facto servem a vida embora sejam pouco ou nada lucrativas.

QUANDO AS TEORIAS SE TORNAM PERIGOSAS

O problema das teorias é serem contra o real e não divorciadas do real. As mais perigosas, em ciências da vida, são precisamente as mais verosímeis, como a do vírus é bem o exemplo.
Se, nas ciências físicas, uma teoria errada é apenas mais uma onde tem havido tantas, nas ciências da vida, como a prática médica infelizmente confirma, tem consequências trágicas.
A fraude da medicina moderna baseia-se exactamente nessas teorias fraudulentas e a Naturologia não poderá avançar se receber, precisamente e sem crítica, essas teorias que dominam toda a patologia e toda a terapêutica.
Será, num curso de Naturologia, o nó górdio mais difícil de desatar.

IATROGÉNESE QUÍMICA E RADIOACTIVA

Onde, precisamente, o princípio do intellectus (inter+legere) faz mais falta - nas ciências da vida - esse princípio é completamente esquecido, enquanto nas ciências físicas permite a aparente tranquilidade que se goza nessa área.
À parte o nó górdio da radioactividade e das radiações ionizantes, que acaba por incidir, em cheio, nas ciências da vida (a vida é sempre a primeira e a última a pagar todas as culpas de todas as várias e desvairadas ciências ) a ciência física é um oásis.
Já a química , no que respeita à sua incidência sobre a célula viva, é outra vez a guerra permanente.
Não duvido que os químicos tenham trabalhado em teorias certíssimas. No entanto, foram essas teorias certíssimas que fizeram do mundo moderno - afogado em merda química e radioactiva - o tremedal que é.
Ninguém pode dizer, por exemplo, que os medicamentos não são baseados numa teoria certa e que não se destinam ao bem da humanidade.
Ninguém pode dizer que a farmacognosia não está certa da 1ª à última das suas 1500 páginas.
Os efeitos dos fármacos na célula viva - iatrogénese médica - é que nem sequer se discutem... Tabus e dogmas religiosos não se discutem.
De vez em quando fala-se do episódio Talidomida. Os jornais vão falando de outras talidomidazinhas. Mas a maior parte das talidomidas continuam no mercado, sem que ninguém suspeite das novas doenças que estão fabricando. Novas doenças que a teoria da hereditariedade vai atribuir aos bisavós do doente e a teoria genética ao gene 1051 que - acaba de se descobrir - é responsável pela doença do doente!!!

BIOQUÍMICA E BIOFÍSICA TAMBÉM SE BALDAM

Suposto era que a Biofísica e os biofísicos, bem como a Bioquímica e os bioquímicos, dessem - como interfaces interdisciplinares entre ciências - algum contributo ao conhecimento da verdade.
Nada de novo nessa frente, porém:
a) os instrumentos utilizados não conseguem detectar a alma (a bioenergia) na ponta do bisturi
b) Não podendo os instrumentos limitados descobrir o ilimitado da vida e do ser humano , como é óbvio, os biofíscos e os bioquímicos viram-se para dentro do limitado e estudam o seu gueto de estimação, transformando cada vez mais num gueto a ciência que produzem.
Gueto de luxo mas gueto, hoje, a Bioquímica e a Biofísica traduzem o autismo da neurose que ataca, de lés a lés, a comunidade científica, nomeadamente se está no campo complexo da vida e não nos serenos acimentados das ciências físicas e matemáticas, vias rápidas para lado nenhum.
Desgraçadamente, seriam a Bioquímica e a Biofísica dois contributos à ciência médica moderna, cujo destino só podia ser o daquelas duas ciências auxiliares: o gueto, promovido a campo de concentração.

AS TEORIAS ABANDONADAS PORQUE SERVIAM A VIDA

Entretanto, foram minimizadas , esquecidas e marginalizadas teorias que poderiam (e vão poder) servir o homem do novo paradigma.

Cito, por exemplo, o esquecido Rudolfo Wirchov (1821-1902), patologista e antropologista alemão, autor de uma «Patologia Celular» que ainda está por descobrir mas que permanece embargada pela censura médica, já que nela se detectam os primeiros princípios da nova medicina ortomolecular, ou antes, a lógica ortomolecular em medicina.

O microbiologista russo Elijah Metchnikoff ( 1845-1916), podia ter sido um fundador das ciências da Imunidade, se a instituição (Instituto Pasteur) e depois o Prémio Nobel (que compartilhou com Paul Ehrlich( 1854-1915) não o tivessem aliciado e desviado do bom caminho.

Outro esquecido é Georges Lakhovsky, com a teoria da electricidade da célula, onde estão os germes da nova medicina vibratória, de que hoje são dois ramos adultos a Gnose Vibratória e a medicina antroposófica.

Também esquecida e igualmente marginalizada foi a teoria vitalista, doutrina segundo a qual os fenómenos vitais derivam de forças e propriedades específicas, estando coordenados por uma força especial, chamada «força vital» e não dependem apenas das forças ou leis físico-químicas.
Apesar de ser uma teoria defendida por alguns craques - Aristóteles, escolásticos, Claude Bernard (teoria da directriz) , Barthez, J. Grasset, René Berthelot e Brunschvicg, apesar de tão boas credenciais, o vitalismo caiu no esquecimento, confirmando que a maior heresia no seio do cientifismo esclerosado é tudo o que aponte para o global e holístico da vida .
Pouco lucrativo, o vitalismo irá hibernar até que as condições cósmicas o exijam de novo cá fora.
Poderá dizer-se que renasceu com a teoria (a que eu prefiro chamar proposta de trabalho) dos campos de morfogénese cósmica de Rupert Sheldrake, talvez a mais esplendorosa das teorias actuais e que foi decisiva no «boom» da medicina vibratória.

A teoria do orgone, heroicamente defendida por Wilhelm Reich, tem a biografia atormentada do seu autor. Acabariam, teoria e autor, numa masmorra psiquiátrica norte-americana. Lendo Wilhelm Reich, um dos pensamentos mais lúcidos, provocadores e estimulantes do mundo moderno, temos a sensação de que ele marrou, toda a vida, contra as paredes da caverna, pressentindo que a luz e os pássaros estavam do outro lado da parede mas sem conseguir sair do buraco escuro.
Deixou-nos Reich a teoria do orgone, traduzindo, por outras palavras, o ki protochinês e o prana hindu.

O mesmerismo, teoria de Franz Anton Mesmer (1734-1815) veio até à actual «hipnose regressiva», equívoco que parte da medicina adoptou sem grande sucesso.
Nada impede que a hipnose continue a grassar, como praga, no meio das terapias alternativas. Tem o seu quê de violência mal controlada que agrada à mentalidade médica, estruturalmente violenta.
Outro caminho do mesmerismo iria, via Charcot ( 1825-1893), médico francês fundador da neurologia moderna, desembocar numa hipótese bem mais interessante - o magnetismo animal - igualmente esquecida e marginalizada. No entanto, o magnetismo animal é outro nome para dizer o mesmo : ki, prana ou bionergia.

Entretanto e proibidos pelos polícias do cientifismo de estudar e ter acesso à «força vital» ou bioenergia, os ocidentais começaram a demanda do que outras tradições tinham dito, com outros nomes, da mesma força vital ou bioenergia, descobrindo então a acupunctura, o yin yang taoísta, o chi kung, os chacras e outras coisas.

AS ETAPAS DO MÉTODO

A restante temática sugerida pelo convencionalismo de Henri Poncaré e Pierre Maurice Marie Duhem (1861-1916), está nos livros:
A hipótese funciona como a fase dinâmica e prospectiva nas 4 fases do método científico Sem hipótese, a investigação não avança para a verdade.
Hipótese é a entrada da criatividade e da imaginação no reino do inerte dos dados observados (Observação: 1ª fase do método científico) .
Mas o que se verifica hoje em dia é que a medicina embarga todas as hipóteses que nos podiam libertar das suas garras. O problema de um curso de naturologia, joga-se exactamente nessa 2ª fase do método científico: a hipótese.
Não haverá nova medicina sem novo paradigma e não haverá novo paradigma sem novas hipóteses que possam dar a reviravolta de 180 graus que se exige.
A merda, no método científico, é mesmo quando, dada a verosimilhança, adequabilidade e aceitabilidade da teoria, ela passa a lei. Não tarda então um minuto que a lei não passe a dogma e a ciência a religião.
Além disso, lei traz a carga semântica da ordem e da autoridade policial. Lei lembra tribunais, polícias, cães-polícia, juízes e advogados. Lei é lei, dura lei.
O panorama moderno de hecatombe nas bio-logias, deriva de leis que se transformaram em dogmas. Dogmas de que a medicina é a inexpugnável igreja.
Já no domínio da anedota, surgiu muito recentemente a teoria do caos para «estudar sistemas muito complexos» (sic).
Tal como os antibióticos (de espectro largo ou estreito) têm o nome com eles, esta «teoria do caos» tem o nome com ela.
A intervenção do computador - e das imagens em computador - denuncia que esta teoria veio dar alento à «virtualização» do real que tem vindo a invadir, como lepra, o campo do real.

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quinta-feira, fevereiro 19, 2009

IDEIAS AC 1971

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domingo, 5 de Janeiro de 2003-scan

PROSPECTIVA E FORMAÇÃO PROFISSIONAL(*): DIÁRIO DE 1971

(*) Este texto de Afonso Cautela, na onda prospectiva do ano de 1971, terá ficado inédito

No limiar da revolução pedagógica anunciada pelo advento dos computadores (quando os teremos dentro de casa, como o telefone ou a electricidade?), a Educação Permanente é um pleonasmo.

A partir de agora, será mais fácil compreender a inevitabilidade e a urgência de alargar e desinsularisar o conceito de Educação.

A partir de agora, será mais fácil compreender que a Escola deverá ampliar o seu âmbito, cair dos muros dos edifícios onde se tem confinado.

A partir de agora, será mais óbvia a necessidade da Imprensa (utopia ou alternativa inevitável?) assumir inteiras responsabilidades e os outros mass media, que ainda estão subjugados à Publicidade comercial ou à Propaganda política, esforçarem-se por informar e formar - em suma, permanentemente educar.

Sem querer, quase sem querer mas por força dos factos que a isso conduz, chegamos ao conceito de Educação Permanente ou Educação Continuada - que é a necessidade de o homem viver em convívio e comunidade, comunicando através dos meios naturais e das técnicas que ampliam esses meios. Esta evidência esconde afinal uma verdade profunda: a Educação reencontra o homem, quando for praticada as 24 horas do dia, os 363 dias do ano.

O ensino profissional será outra coisa: ocupação de horas, de dias, de semanas, com períodos de ponta e outros de acalmia, com horários, programas, exames (até quando?), testes, provas de apuramento e selecção. Para uma ordem social que exige competição e concorrência (que se baseia na concorrência) a escola de ensino prepara os indivíduos para a corrida, para o "struggle", para a selva.

Mas Educação é tudo: o livro, o jornal, o filme, a televisão, a própria escola, a colectividade desportiva e cultural, a audição radiofónica e o concerto, o centro de convívio (até um café!) são (veículos de) Educação, são os pontos de encontro entre o indivíduo e a comunidade, onde o comportamento se transforma.

Num mundo em mutação, a Educação é sempre permanente - ou não é. O pleonasmo serve, portanto, apenas para demonstrar até que ponto ainda estamos longe de fazer coincidir o homem consigo próprio. Até que ponto a Educação - assim entendida - é de facto a arte e a ciência capaz de realizar essa coincidência, quer dizer, desalienar o homem das suas básicas escravidões.

EDUCAÇÃO E “HOMEM OBSTRUÍDO"

Na explosão de conhecimentos vai radicar uma das causas que levam agora todos os poderes constituídos à unanime resolução de reformar as Escolas. De mês para mês, acumula-se um material de informação que já ninguém consegue controlar, seleccionar e muito menos assimilar.
Neste "afogamento" de quem aprende - e pretende agir com base nessa aprendizagem - vai encontrar-se uma das causas da paralisia que ataca as instituições encarregadas tradicionalmente de transmitir bagagem cientifica. Porque tal bagagem excedeu todas as possibilidades individuais de controlo.

Vive-se hoje o absurdo de termos construído um edifício sumptuoso e sermos obrigados a ficar numa choça - porque o edifício não tem portas de entrada nem janelas de saída... (o que Kierkegaard censurou a Hegel em particular e aos sistemas metafísicos em geral).
O homem vê-se desarmado, porque simultaneamente não pode reaver o instinto animal que perdeu e ainda não adquiriu o instrumento intelectual que, substituindo o instinto, o dote de novos poderes sobre a circunstância e sobre si próprio.

A isto acrescenta-se a explosão dos mass-media e a opressiva, cancerosa proliferação da imagem que bombardeia cada vez com mais força e frequência o desprevenido cérebro do (tele-) espectador.
A passagem da Era Gutemberg para a Era da Imagem electrónica equivale à demissão de um direito inalienável: o de escolha. Os mass-media significam o despotismo do indiscriminado: através de um reduzido número de canais, é completa a sujeição do indivíduo e o seu poder ou direito de escolha completamente abolidos.

Quando se medita em tudo o que actua sobre a formação-deformação do indivíduo, a Escola diminui de importância face aos outros meios de dominação pedagógica: é possível, através dos visuais extra-escolares, influir com muito mais violência e eficácia. Dir-se-á mesmo que a acção da Escola ficou dissolvida e anulada na das grandes redes transmissoras.

Menos urgente do que refazer escolas e universidades seria, assim, despertar os cérebros do círculo vicioso que representa o envolvimento sistemático e devorador que os mass-medía exercem sobre o cidadão em idade escolar ou pós-escolar.
E mais importante do que reorganizar métodos, abolir exames, descongestionar disciplinas e salas de aula, reorganizar serviços dentro dos estabelecimentos de Ensino, seria compenetrarem-se os meios de Informação da responsabilidade educativa que lhes cabe: a Imprensa, o Livro, o Cinema, não podem colocar-se à margem porque são os factores mais directos da Educação Permanente.

Por vezes é com o alibi da objectividade que tenta travar-se a função educativa da Informação; outras, com a desculpa da especialização; outras ainda, com a evasiva pura e simples, com a pura irresponsabilidade e o puro escapismo, designados então de diversão,

Mas o que abarca a totalidade do fenómeno humano e define a deontologia profissional ou ética do trabalho em função dessa totalidade não-compartimentada, sabe que não é possível encontrar fundamento seguro da Imprensa crítica fora de uma filosofia da História; e de que a palavra é uma arma, para o Bem ou para o Mal.
Rejeita tanto o alibi da objectividade como o da especialização (cada um no seu campo, não lhe devem importar as consequências e liames com a finalidade última do que se diz, escreve, faz).

A todos os níveis de actividade, o grave problema que se põe ao homem "asfixiado" (de papel, de imagens, de palavras, de informações, de conhecimentos, de ciências) é o da escolha, logo o das prioridades. Só a Educação, no sentido mais lato e mais rigoroso, com ou sem auxilio de computadores - o tratamento automático da palavra - pode contribuir para vencer o impasse.

ESCOLHER HOJE O AMANHÃ

Relacionada com o crescimento económico, a Educação toma o nome de Formação Profissional. Tem, portanto, um significado e um objectivo mais definidos. Destina-se a preparar os obreiros da sociedade tal como ela se fará no imediato amanhã.

Mas - e o primeiro problema surge - se a tecnologia imprime uma velocidade cada vez maior aos acontecimentos, a preparação profissional desactualiza-se ao mesmo ritmo. E a pergunta a fazer já não é de como se procedia ontem, mas o que amanhã será exigido: de governos e cidadãos, de chefes e subordinados, de professores e alunos.

Em função das mudanças e transformações previstas (ou apenas pressentidas) a formação técnica de hoje não prescinde do modelo de sociedade que se pretende ir construir e que já se está construindo. Falar do Ensino é, ao mesmo tempo, inquirir do conjunto da evolução histórica (de um país ou de um conjunto de países).

Nesta corrida contra-relógio para acertar o passo com os mais desenvolvidos, alguns países encontram-se em posição singularmente vantajosa. Estando, muitos deles, a programar os seus planos de Fomento, pressupondo que nenhuma mudança se operará no Mundo, arriscam-se a ver ultrapassados, em pouco tempo (anos ou meses?) todo o arsenal de boas vontades, capacidades, energias e capitais investidos.

Então, que fazer? E que Ensino dar às novas gerações? Antes de tudo e acima de tudo, urge prepará-las para o imprevisto e para o imponderável. Do que acontece segundo o imaginado não advirá nenhuma alteração sensível; preparadas para o que der e vier, as novas gerações terão de saber enfrentar aquilo que escapou às regras estabelecidas e às previsões seguras.
É a excepção e a ciência da excepção o que deverá ensinar-se. Uma propedêutica de um conteúdo não fixo mas susceptível de se adaptar e assimilar, como método de trabalho, o conteúdo eventual de novas aprendizagens, o "futurível" x, y ou z.

Os teóricos que hoje investigam os domínios da gestão empresarial falam de uma nova ciência - a Prospectiva - em que depõem esperanças e na qual confiam como força capaz de evitar que os factos pulem por cima dos homens. Uma mentalidade nova (mas completamente nova) terá de nascer, segundo esses cientistas e práticos.
De nada nos serve - afirmam eles - ensinar hoje uma técnica que, meses após, será substituída por outra. A reciclagem e os Institutos de novas profissões vêm, como remendos quase sempre tardios, procurar um acerto de agulhas e providenciar para emendar os erros de um Ensino em moldes estáticos tradicionais, de um ensino retrospectivo. E sempre ao preço de valores humanos e materiais desperdiçados: porque não se apresenta económico( rentável) refazer por completo um curso, uma carreira, em suma, uma vida. Urgente é que hoje a escolha se faça de acordo com amanhã.

Em nenhum outro campo como o do Ensino Profissional se põe com tanta acuidade a necessidade de uma Prospectiva, quer dizer de uma sondagem das possibilidades do futuro ao qual os jovens de hoje e homens de amanhã terão de corresponder. Em eficácia mas também, se possível, em liberdade.
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(*) Este texto de Afonso Cautela, na onda prospectiva do ano de 1971, terá ficado inédito■
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domingo, 5 de janeiro de 2003-scan

PROSPECTIVA: DIÁRIO DE IDEIAS EM 1971(*)

Com a Prospectiva , o futuro deixou de ser alvo, o objectivo, meta a atingir em data mais ou menos longínqua, para se tornar num ingrediente activo do presente, determinando neste uma completa viragem de perspectiva nos métodos de pensamento e acção.
O futuro deixou de se encarar como distância a percorrer para se considerar uma dimensão (a mais importante dimensão) do que presentemente se constrói e pretende construir.

A previsão - eixo de uma mentalidade científica que só recentemente chegou às ciências humanas e do espírito, que só há pouco tempo começou a informar o estatuto de uma nova ética - instalou-se portanto nos costumes intelectuais dos países industrialmente mais avançados e os institutos de pesquisa multiplicam-se, inspirados uns nos outros, ou corrigindo-se uns aos outros.

O conceito de progresso nem sempre foi aceite de maneira tão definitiva e mesmo tácita, porque também nunca foi tão clara a necessidade de progredir para sobreviver e tão lúcida a desmistificação do conceito "futuro", ou dos preconceitos que em nome dele se cultivavam.
O que a Futurologia ou Prospectiva hoje pretendem é re-inventar esse conceito à luz dos dados objectivos e da realidade material que tudo condiciona, que quase tudo determina.

As críticas ao progresso tinham por fundamento, principalmente, a ignorância de uma antropologia capaz de reintegrar as ciências humanas na sua diversidade convergente e estas com as ciências exactas; mas tinham também como causa a incultura que separava a realidade material da realidade psíquica e as contradições que abismam o homem em si próprio (que o alienam), ao distanciar o individual do colectivo para por completo o reificar e lançar no caos do objecto.

A arte e ciência da Prospectiva não nasceu por acaso ou por um luxo, mas surgiu do e no momento exacto em que, para reabilitar o conceito de progresso, se verificou a necessidade de uma palavra-chave, de uma filosofia, de uma axiologia fundamental. A imagem da sociedade a construir é, com efeito, absolutamente necessária quando se procede à destruição e reconstrução do que o homem considerava indigno de si.

A Prospectiva, partindo de um inventário ou balanço tecnológico, passando depois a uma programação ou planificação das actividades económicas, dirige-se em última instância para a invenção de um eixo de valores capazes de dinamizar a inerte matéria e a inércia da matéria.

Prisioneiro das alienações que a tecnologia da sociedade de consumo não criou mas intensificou, o homem critica o "progresso técnico" como culpado do retrocesso moral e humano. Mas não se trata, quando visto à. lupa, de um esquema inamovível, nem, tão pouco, de retrocesso: só que a lucidez com que hoje se critica e contesta é também mais exigente do que aquela com que a barbárie de outros séculos se auto-criticava. Multiplicaram-se as alienações, talvez, mas apurou-se também a vigilância crítica que as escalpeliza.

A Prospectiva aparece assim como termo alternativo da antinomia desespero-esperança, alienação-liberdade, e não como uma segregação de cérebros lunáticos, para embelezar, mitigar ou mistificar a brutal realidade dos factos. Mergulhados na caótica e dramática realidade, os olhos que lançamos para o futuro não nos distraem dela: antes pelo contrário, são a única forma de nos permitir que o presente limitado e sem horizontes afogue ou sufoque as disponibilidades humanas de esperança, logo as possibilidades de acção.
Suporta-se melhor um presente de lutas e sofrimentos, se ao menos há a esperança de trabalhar para um futuro possível, imaginável. Não por escapismo e fuga, mas por responsabilidade e consciência das dificuldades e das fortes razões de derrota e descrença que nunca faltam a quem testemunha o seu tempo, as grandezas e misérias do nosso tempo.

O FAMOSO "EMBARAÇO DA ESCOLHA”

Perante a avalanche de livros e autores que diariamente nos é proposta (ou imposta), mais do que nunca se verifica (verifica o leitor de profissão ou devoção) a necessidade de eleger, de seleccionar, de saber o que afinal vale a pena.

Dado que também o impacto publicitário chegou aos livros, entendidos assim como a mercadoria que de facto são, na sociedade onde há que consumir, quer o consumidor queira quer não – concorrendo para salientar autores que o não merecem ou merecem menos e para esquecer outros de que o futuro falará, - mais difícil se torna sabê-lo.

E o famoso "embaraço da escolha" transforma-se num drama, para quem queira escolher certo.

Dado ainda o pouco tempo de que o triste mortal dispõe, numa vida (mesmo folgada) que tem, não só para dedicar à literatura, mas para mil e uma outras coisas e até para viver - num tempo, ainda por cima, em que a imagem, da TV ao cinema e à revista, absorve quase por completo as atenções ainda (raramente) disponíveis - o problema torna-se mesmo paroxístico.

Aparentemente, a introdução de um critério prospectivo na Literatura viria desembaraçar-nos um pouco de tal aperto, mas só aparentemente. Porque nada mais fluida e mais variável do que os conceitos de vanguarda, de modernidade e de originalidade. Escolhermos nós os autores susceptíveis de não estarem desactualizados e ultrapassados daqui a 5 dias, 5 meses, ou 5 anos, implica um processo instaurado a toda a estética literária, e uma intransigente atitude para com os hoje proclamados, por altissonantes altifalantes, como reis.

Um processo instaurado ao que vive e ao que morre é, em literatura, mais difícil ( mesmo perigoso) do que em qualquer outra actividade.

A verdade, porém, é que a visão de um terceiro mundo literário, que a pouco e pouco se emancipa e revolta, parece constituir a mais segura via de escolha dos autores e literaturas para amanhã. Terceiro mundo que terá de se entender não só ligado ao que geográfica e economicamente assim se conhece, mas ao que, disseminado nas culturas prósperas (nas sociedades da abundância) vem de uma situação subdesenvolvida, de uma secular frustração: povo ou classe pode ter encontrado, neste ou naquele escritor, o seu porta-voz exemplar.

“CONTEMPORÂNEO DO FUTURO"

A função do escritor hoje só pode ser, fundamentalmente uma: Chame-se-lhe intelectual, critico, filósofo, pensador, poeta, etc, o objectivo que hoje se apresenta como dominante a quem pensa é o de criar, com o pensamento (e com a imaginação) uma força capaz de transformar o mundo e a vida.

Mas o que hoje se verifica também com o congestionamento provocado pela aceleração histórica e pelo crescimento tecnológico, é a desproporção entre a enormidade da tarefa imposta ao pensador e as suas exíguas possibilidades de ordem material. Mas como o pensamento continua a ser, inevitavelmente, uma tarefa individual (não há hipótese de colectivizar a inteligência por mais que os dogmáticos afirmem que sim!), o pensador tende a trabalhar em equipa, forma rudimentar e única admissível de unir individualidades sem as liquidar.

Por mais revezes e desaires a que a solidariedade de intelectuais dê lugar, o “contemporâneo do futuro" tem de acreditar no grupo, na animação de grupo, na equipa e no trabalho de equipa como únicas formas de equilibrar liberdade com eficácia, sem deixar que uma delas (es)trague a outra.

UMA ÓPTICA DIFERENTE DE VER O MUNDO

A política não se escolhe: Somos escolhidos por ela. Obedece a condições objectivas, de base, inelutáveis, que a ciência estuda e estabelece, e às quais o desenvolvimento (económico, político, social, cultural) terá por sua vez que obedecer também.
O tempo das opções políticas por motivos subjectivos, ideológicos, temperamentais, tende a acabar. Agora, não é a vontade (de um indivíduo ou de um grupo) que comanda, que determina opções; ou se for, erra. E os erros pagam-se cada vez mais caros. A política deixa de ser uma arte para ser cada vez mais uma técnica.

A Prospectiva, com todas as matérias que lhe são afins, investiga essa técnica.

Prospectiva é uma óptica diferente de ver o mundo.

Prospectiva é o exercício da imaginação criadora em todos os campos.

O homem cada vez mais excede o político no sentido de "engagement" partidário, porque cada vez mais o "engagement" é humano. Leia-se, para tal, a Introdução à Política do homem, de Edgar Morin. Cada vez mais a ética se sobrepõe aos compromissos partidários e cada vez mais a política é uma exigente e ampla comparticipação de compromisso não com grupos mas com toda a comunidade humana

O "encombrement", a delapidação do equilíbrio e recursos naturais, a intoxicação das consciências (adormecimento, entorpecimento) pelos "mass media", a poluição do habitat humano, o crescimento urbano e consequências sociais, os computadores e sua utilização, a força atómica e suas aplicações, a conquista da lua e suas consequências, o trabalho e o tempo livre, o impacto da ciência sobre a sociedade, - diríamos que são apenas alguns tópicos de alguns outros problemas cujas soluções são típica, necessária e inevitavelmente prospectivas, Quer tenham ou não esse nome.

SINAIS DE PROGRESSO

O noticiário da Imprensa é dominado pelos factos que acentuam os aspectos "barbáricos" da civilização. No entanto, num limbo de indiferença e de silêncio, outras notícias há de factos que significam evolução, progresso, enriquecimento humano.

Sem esquecer o que de Abjecção existe no mundo, porque não evidenciar, e sublinhar os "sinais de Progresso"?

Na Literatura, na Educação, na Medicina, nas Ciências e Relações humanas, diariamente verificamos que se designam de progresso os sinais de barbárie, enquanto os sinais de evolução humana se escamoteiam ou hostilizam.

Somos pelo progresso que se não identifica unilateralmente com progresso técnico mas que abrangendo todo o complexo da realidade humana se definirá em última instância por uma Ética: Uma Ética Prospectiva, como a definiu Jean Fourastié num livro desse nome.

Somos principalmente contra as mistificações do progresso e contra os que dele se servem e falam em seu nome para justificarem acções e atitudes às vezes bem regressivas e retrógradas.
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(*) Este texto de Afonso Cautela, do tempo da prospectiva, ano de 1971, terá ficado inédito, apesar dos dois nomes de autores citados : Edgar Morin e Jean Fourastié
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1-5-diário71-2 inédito de 1971 – diário de um idiota 

O BALANÇO DA CIVILIZAÇÃO [JUNHO, AGOSTO, OUTUBRO E DEZEMBRO DE 1971 ]

7/Junho/1971 - A proliferação desordenada de estímulos, factos, ideias e conhecimentos, parece ser a característica dominante da cultura a que se chama tecnológica.
A bio-resposta parece ser também uma proliferação desordenada de células e respectiva patologia chamada cancro.
Em ambos os casos, o processo de sub-divisão, hipertrofia, multiplicação e congestionamento, encontra paralelo no congestionamento urbano e, como ele, é sintoma de doença, de engarrafamento, sem horizontes de cura.
Quer no campo social, quer no campo cultural (ciências e conhecimentos), quer no campo vital (!), a civilização é cancerígena.
Dentro desta tendência para a multiplicação, não admira que se multipliquem os simpósios pare obviar à multiplicação, congressos, encontros, semi simpósios, etc (nenhuma palavra define tão bem a civilização anarco tecno-analítica, como esta: etc) que tentam fazer o balanço, a síntese, o ponto de tantas disciplinas. Fala-se então muito de actividade inter-disciplinar.
Afogado em tanta especialidade, meio maluco de técnicas e tecnicismos, o especialista não tem tempo de se coçar quanto mais de filosofar sobre o alcance da sua profissão: convidam-no então, de vez em quando, a participar em alegres comícios onde se filosofa sobre a ausência da filosofia, onde se apresentam sínteses das sínteses que não existem, onde se lamenta com profundíssimas análises o mal da hiper-análise, onde maniqueisticamente se critica o maniqueísmo do dualismo plato-kantiano e arredores. Onde, em suma, com palavras, se pretende fazer frente à civilização da Verborreia verbal e em papel se combate a civilização do papel. Onde se propõe mais meia dúzia de ciências a haver, que venham resolver problemas criados pela multiplicidade das múltiplas ciências que já havia.

30/8/1971 - Entre a vasta gama de funcionários que servem a ordem burro- tecnocrática, há um curioso “gang" encarregado da propaganda, que exerce a opressão intelectual mais crua e crassa em nome da mentalidade científica e da ciência, sempre!
Característico desse funcionalismo (público) é uma atitude de sistemático achincalhamento de tudo o que, esse mesmo funcionalismo, decide a priori e sem crítica, sem estudo, sem conhecimento, classificar de impostura irracionalista. É impostura irracionalista tudo o que convém à ordem vigente.
Chovem, então, as "desmistificações" da astrologia, do budismo, da mística cristã, do mito, da magia, de tudo, enfim o que, sob o anátema do "obscurantismo irracionalista" os tais funcionários do regime entendem pôr fora de campo, e porque não entendem, e porque lhes faz engulhos, e porque os incomada, e porque os desmascara.
Muito corrente, também, nesse gang de funcionários, é a constante e histérica alegação de que se encontram ao serviço da ciência, de que tudo neles é científico, de que a racionalidade e o espírito positivo rege todos os seus actos, desde a privada (vida deles) até à pública.
Entre nós ouvem-se muito os experimentalistas, os da arte cibernética, os da crítica estruturalista, os da nova crítica e já se ouviram os do neo-realismo, os (ditos) marxistas , os alto lá com o charuto muito científicos todos que se fartam.
Vai-se a ver é tudo - de um ponto de vista efectivamente científico - uma grande droga, porque, além de não coserem duas ideias seguidas que se digam coerentes e lógicas, a "ciência" deles está-se mesmo a ver qual é: a dos manuais que empinaram em qualquer escola para vomitarem em qualquer exame diante de qualquer professor, com vista ao lugar de presidente, professor ou chefe de qualquer coisa. Essa é que é a grande ciência que eles arrotam e nos atiram à cara, com que pretendem calar-nos e tachar-nos de reaccionários, de impressionistas, de obscurantistas, de místicos e de charlatães ao serviço da mais negra irracionalidade, da mais anti-científica impostura, etc, etc.
Na medicina, por exemplo, é cada tonelada de ciência que a gente fica esmagado. Tudo em nome da ciência - incluindo as drogas farmacêuticas, as transplantações e as teorias alimentares que até já os da profissão provaram estar erradas.
É que, além do mais, esses "cientistas" ignoram que a sua famosa "ciência" - não a que eles criaram, mas a que se limitam a usurpar, remastigar, devorar, reproduzir, avacalhar, - não pára de evoluir, porque não é mais nem menos do que um frágil edifício de "teorias" (de hipóteses), constantemente postas à prova na prática e dentro da realidade, sobre as quais teorias nada de eterno, definitivo, imutável e dogmático se pode construir, sobre as quais teorias se vai edificando, portanto, uma prática sempre precária e provisória e transitória, tanto mais frágil e vulnerável ( a prática), quanto menos os tempos vierem comprovando a verdade, a racionalidade, o fundamento e a fertilidade dessas tais teorias.
Assim é que, perante os histéricos lacaios de uma ciência que o deixou de ser a partir do momento em que se transformou em dogma, a partir do momento em que cristalizou e deixou de evoluir (não há ciência que resista ao seu uso e abuso dogmático, incrítico) o investigador out-sider continua a ser considerando um "impostor", um "curandeiro", um veículo de crendices e baboseiras .
Não falando já da miserável sujeição em que se encontra a (chamada) ciência de uma indústria e de uma tecnologia completamente ao serviço da exploração do homem pelo homem, será preciso citar, só como pequeno exemplo, a obediência da Medicina à indústria química? No entanto, ainda há funcionários que têm o arrojo de considerar crendice, devaneio, liberdades poéticas, bruxedos, o esforço de qualquer espírito que, por ser lúcido, queira escapar à histeria de consumo (indústria alimentar) e com ela à histeria de toda uma máquina homicida que tem na medicina seu vade mecum e que se julga impunível só porque a cumplicidade entre funcionários do sistema é total e porque essa cumplicidade, esse crime, se impõem "em nome da ciência.”

CRÍTICA DA PSEUDO-CIÊNCIA

Em 1960, no livro “O Despertar dos Mágicos”, fazia-se a crítica dessa pseudo-ciência que, ao serviço da exploração e da degradação humanas, se continua a apresentar como imaculada. Logo a Union Rationaliste, fundada em 1930 e com sede na Rue de L'École Polytechnique, 16 - Paris 5 , desencadeava contra os autores uma campanha histórica. A raiva e o furor que tomaram, de repente, tão sisudos senhores, tão objectivos, científicos e racionalistas como esses que a gente por aqui atura, marcaram bem a data e local.
Entre nós, de nada serviu António Sérgio ter andado a pregar, como talvez mais ninguém no mundo, o que vem a ser ciência e qual a ciência que importa e de como se faz ciência pensando. Como ele sempre fez: o amor das novas hipóteses, o ousar teorias, o indagar e desbravar caminhos, a crítica constantemente exercida pela ciência às suas próprias "descobertas" (provisórias, sempre), a ciência entendida como PROBLEMÁTICA, tudo isso esquecem, ou nunca souberam, os que agora tomados do vírus “neopositivista", ou estruturalista, ou positivista-ainda-à-moda- do-Teófilo-Braga, vêm bater na paciência dos que pacientemente continuam a ensaiar hipóteses, na modesta e apagada fainasinha de afinar os seus próprio intelectos (primeiro), de pesquisar que hipóteses interessam hoje ao avanço do mundo para amanhã (depois).
Como se sabe (mas não sabem os da crítica) a imaginação é o nome que tem a ciência quando se alia à poesia. Os autores de « Le Matin des Magiciens» tiveram que inventar um ismo - o realismo fantástico - para designar o que não fosse nem o dogmatismo da razão nem a superstição do sentimento. Os surrealistas já barafustavam contra as antinomias anacrónicas (que só servem os académicos o filisteus e funcionários do Sistema) que separavam a inteligência do coração, o intelectual do afectivo, a teoria da prática, a poesia da ciência, o uno do múltiplo, o colectivo do individual, o tradicional do novo, o manual do cerebral, o espírito da matéria, a história da actualidade, a fé da experiência, a análise da intuição, etc, etc, toda essa bambochata de prós e contras, única e exclusivamente inventados pelo maniqueísmo da ordem estabelecida, que é sempre maniqueísta nos ruminadores da ciência e nunca nos seus criadores.
Na imaginação criadora - rigorosamente entendida como a faculdade soberana do homem - se fundiam todas as antinomias que não são imputáveis à imaginação mas à sua degradação em “ciência vomitada". Na imaginação estava a palavra. E no ódio à imaginação se unem hoje todos os que, sob o alibi da ciência que nunca criaram nem hão-de criar, julgam liquidar todos os que a criam e continuar a servir-se deles e dela, matando sempre, matando muito.

SOL PARA TODOS OS COLONIZADOS DA INTELIGENTZIA

11/10/1971 - De cada vez que os doutores em crítica me dão com o ponteiro na tola e gritam ciência - porque me acham um crítico muito impressionista lá na gíria deles - faço um esforço de memória e colecciono aqueles homens de ciência que me são de cabeceira, de que fui, sou e serei assíduo frequentador.
Perlustrando um pouco as estantes e cedendo ao pedantismo doutoral de citar nomes, pedantismo a que os doutores constantemente me remetem, vejamos e anotemos como contributo a uma bibliografia do futuro homem de ciência: António Sérgio, Arthur Clark, Bernard Lovell, Linus Pauling, Julian Huxley, Fred Hoyle, Aldous Huxley, Teilhard de Chardin, Einstein (os textos filosóficos e humanistas, claro!...), Foucault, Lévy Strauss, Galileo, Giordano Bruno, Camille Flamarion, Maurice Maeterlinck, Asimov, Josué de Castro, J.B.S. Haldane, Robert Oppenheimer, Freud, Jung, Gaston Bachelard, Jacques Monod, etc
Pois serão estes nomes todos, nomes de literatos? De poetas? De místicos? De irracionalistas? De anti-cientistas?
De cada vem que um fricativo doutor em crítica classifica de "jornalismo”, com ar de soberano desprezo, o ainda possível pensamento público, nesta terra asfixiante inimiga das ideias e do imaginário, é necessário, para não quebrar o moral, a gente lembrar-se de que tem à mão, ali na estante, os bons amigos que têm ido fazendo menos solitária e angustiante esta peregrinação entre compatriotas, que têm, na fronteira da ciência e da imaginação, alimentado o sol à luz do qual depois todos - fricativos incluídos - se vão aquecer.
Se Jacques Monod se encontra nas estantes deste pobretana, deste auto-didacta, deste irrecuperável anti-doutor, não é porque ele tenha a petulância de dominar o pensamento científico de Jacques Monod, hoje o maior herege da Biologia, um dos tais pensadores de fronteira, um dos tais heterodoxos. É apenas porque alinha ao lado de outros hereges da ciência. Biologia e materialismo dialéctico, biologia e filosofia, eis o que o Aprendiz auto-didacta, eis o que se não deixou doutorar pelos colonizadores da inteligentzia, vai aprender em Jacques Monod. De modo a que lhe sirva para outros equilíbrios na corda bamba a que esta terra da doutores obriga todo o colonizado das triunfantes instituições da Intelligentzia em Portugal.

PORQUE SÃO ANTI-ECONÓMICOS OS ESQUEMAS DA ECONOMIA CLÁSSICA

17/12/1971 - Para se fazer entender dos que o hostilizam ou combatem, o herege terá que utilizar a linguagem e a estratégia do adversário (o conformista e funcionário de qualquer ordem estabelecida). Se os números estatísticos, as curvas de rendimento e o cálculo custo-vantagens são os argumentos que normalmente convencem o conformista, há que lhe falar em termos de rentabilidade, mesmo no que aos problemas de saúde e bem estar psicossomático das populações respeita.
No que à saúde pública importa, é muito mais barato prever do que prover. Precaver, por exemplo, mediante hábitos de higiene alimentar e de higiene geral uma epidemia de gripe, custa muito menos ao Estado - se o Estado se quiser incumbir disso - do que, depois da epidemia declarada, recorrer à vacina, à terapêutica e aos múltiplos panos quentes conhecidos, que não impedem os doentes de ficar dias e semanas na cama, dando rombo valente na Economia nacional... Isto sem falar nos prejuízos não propriamente contabilizáveis que até são mais importantes.
Regra geral, entende-se Medicina Preventiva principalmente como vacinação: mas digamos que a vacina já não é preventiva e que a verdadeira prevenção começa na higiene entendida como ataque à causa das causas.
Se um etnologista estudasse os diversos padrões culturais com o propósito de saber qual deles consubstancia o mais aperfeiçoado estádio de civilização e de progresso, talvez concluísse que o padrão tecnológico (ou tecnocrático?) não representa, de maneira nenhuma, um estilo definitivo e ideal de progresso, e isto à luz dos próprios critérios, da própria axiologia, das próprias filosofias de valor inerentes a esse padrão.
Há, de facto, desfasamentos tão gritantes na sua estrutura, que, desde logo, conclamam uma certa reserva, para não dizer uma certa hostilidade, por parte do etnologista, mormente se ele for também um pouco crítico e se teima em utilizar aquele tipo de raciocínio lógico que faz a glória e orgulho do tal supradito padrão cultural.
Os desfasamentos mais notórios, iríamos encontrá-los nos campos da saúde a da doença. Embora haja à vista medidas que se impõem como as mais aconselháveis pelo mais elementar bom senso, pela mais estrita lógica, uma incompreensível inércia continua a determinar tipos de comportamento aberrante, absurdo e até criminoso relativamente aos próprios conceitos de aberrante absurdo e criminoso engendrados dentro do supra-supra dito padrão.
No caso da gripe: estabelecido (pelas autoridades que emitem opinião) que seria relativamente fácil empreender campanhas higiénicas de prevenção, o observador imparcial, o tal etnologista com seu cheirinho de crítico, vai, ano após ano, verificando que a higiene é apenas um capítulo (morto) de certas disciplinas e manuais escolares e de que, na prática, os prejuízos se acumulam nas crises, deixando declarar-se (a gripe) o que podia e devia simplesmente evitar-se. Tal como as cheias no Ribatejo, ano após ano, os incidentes na linha do Estoril, os naufrágios na costa, os acidentes de viação, etc, etc. Continua a verificar-se o que podia pura e simplesmente evitar-se.
Digamos que o conceito de Higiene é um dos tais (muitos) a restabelecer em termos prospectivos, pois é bastante retrospectivo o que por enquanto permanece, nas referidas escolas e nos referidos manuais. Correspondendo ele - conceito de Higiene - a toda uma teoria geral da saúde, que por sua vez é consequência de toda uma teoria geral do mundo e da vida, se entendermos a teoria microbiana como relevante, é óbvio que os cuidados higiénicos continuarão a orientar-se exclusivamente no sentido de combater o vírus (ou a bactéria), relegando o resto para o secundário.
Um exemplo retirado ao quotidiano de todos os portugueses: mesmo a legislação em vigor impõe certos cuidados de "higiene" no fabrico do pão. O próprio público, insensivelmente "educado" pelos hábitos que lhe impõem, é levado a exigir um mínimo de limpeza, um pouco por intuição, um pouco por lenta subconsciencialização dessa necessidade. No entanto, o critério de Higiene a que me referia é bastante mais profundo e exigente. Mais lato. Se os cuidados de limpeza são óbvios, necessários, convenientes e desejáveis, muito mais importante para a Higiene como alguns outros (mais exigentes) hoje a entendem é, no que ao pão se refere, todo o processo de fabrico desde o teor da farinha (se de cereal biológico, se de cereal quimificado, se integral, se refinada) até ao (não ou sim) uso de fermentos industriais, grau de cosedura, misturas, etc.
Quer dizer: o conceito de higiene deixou de ser quantitativo para ser essencialmente qualitativo. Dependendo esse conceito de uma filosofia dietética mais geral e, por sua vez, de uma filosofia terapêutica: se causal como a naturopática, estará a higiene muito mais interessada no teor das farinhas do que na limpeza das padarias; se sintomática, muito mais interessada no micróbio do que nas causas profundas que determinam, através da alimentação, toda uma resistência orgânica das populações às endemias como a gripe e etc.■
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1-7-diário71-1- countdown – diário das ideias fixas de eh (ecologia humana)

A CIVILIZAÇÃO MORIBUNDA E O CRÍTICO ABJECCIONISTA [MARÇO, ABRIL E MAIO DE 1971]

Nos textos a seguir apresentados, extraídos de um diário inédito de 1971, é curioso verificar que as ideias, quando nascem, são muito mais interessantes do que quando crescem.
Como as crianças, perdem a piada quando se tornam adultas.
Quase todas as intuições que iriam tomar corpo no projectado movimento ecológico, encontram-se nestas páginas, escritas entre Março e Dezembro de 1971.
Escritas apenas 3 anos antes do 25 de Abril, ainda hoje podem suscitar os ódios e malquerenças de todos os imobilismos.
Talvez porque a crítica visava o ambiente, no seu sentido mais lato, incluindo, obviamente, o político.
Lisboa, 27/7/1997

MALEFÍCIOS DA IMAGINAÇÃO

8/3/1971 - Em princípio e em abstracto, não há ninguém que não estime a imaginação criadora. Todos os que respeitam a cultura (e outros valores da dignidade ocidental, etc, etc.) dizem respeitar também a imaginação. Aos poetas, prestam-se lindas homenagens póstumas. Aos grandes filósofos (depois de bem mortos e enterrados) também. E aos criadores da ciência, idem-idem, aspas-aspas.
Mas o que se verifica na prática e quando a ocasião surge (quer dizer, quando o bicho ainda não tem morrido e com ele a peçonha) é uma feroz perseguição aos inventores, especialmente se actuam no campo mais dominado pelo imobilismo fossilizado dos instalados: a investigação ou imaginação científica.
Todos conhecem inúmeros exemplos: mas por agora, basta citar o sempre clássico Galileo e o ainda recente (quente no túmulo) Wilhelm Reich.
Porque a verdade é esta: da ciência conquistada vive todo um populoso grupo de pessoas que até se chamam, a si próprias e quando calha, cientistas (upa, upa), homens de ciência, sábios (que Lao Tse nos absolva) mas que se limitam a parasitar o que foi autêntica criação dos autênticos criadores, sempre e é claro devidamente perseguidos na sua época pelos que detinham então o poder académico.
São esses, os académicos, os que por definição exercem mais obstinada resistência à “Imaginação", sempre que esta surge sob a forma de novas teorias, que é a forma particular assumida pela imaginação criadora quando no campo da investigação científica.
E então é ver como os grupos de força constituídos, perseguem, liquidam, defraudam, difamam, encarceram o autor da «teoria», até que de vez o e a consigam eliminar, ou até que de vez a doutrina (ou teoria) vença, consiga vencer, alargando-se então a todo o espaço cultural com a velocidade do fogo na palha.
Então, sim, todos o saúdam (se acaso o "rebelde" ou "out-sider" ainda não tiver morrido), todas as academias lhe prestam homenagem, todos os filisteus proferem discursos lindíssimos de divulgação e panegírico em sua honra. Enfim, quem teve as dores foi ele e não eles.
Assim tem sido, assim é e assim continuará a ser. Os "malefícios da imaginação" igualam quase os do tabaco e revelam-se em todo o seu tamanho e virulência num meio que acima de tudo (mas acima de tudo) abomina a imaginação e seus subversivos portadores.
Esta posição implica, entre outras dificuldades, a definição de um Sistema (o Establishment) como um todo, -- Sistema que, depois, irá identificar-se, em última instância com uma categoria de classe mas de classe que pode estar dentro da mesma classe e aí nasce a grande confusão -- definição que a intelligenzia ortodoxa dita da esquerda, evidentemente, se nega sistematicamente a admitir, porque seria ao fim e ao cabo admitir que nem sempre os que se dizem defensores de uma classe oprimida o são e bastas vezes mesmo são até (segundo portas travessas) os seus opressores mais directos.
Admitir um sistema totalitário, sem fissuras, permite estabelecer a dialéctica ao nível Indivíduo-Instituição como uma luta de classes, o que de modo nenhum interessa à Instituição, seja esta igreja, academia, universidade ou partido.
Por exemplo: quando Henri Lefèbvre se insurge, em nome do marxismo, contra os tecnocratas, quer frisar que o (seu) pensamento de esquerda não alinha com e tecnocracia dita capitalista.
Só não nos explica como é que é possível não alinhar com a tecnocracia , desde que se aceitem os postulados básicos dela: a cibernetização do homem, através da técnica, da tecnologia e da indústria, ou seja, do Sistema.
Posições como a de Raymond Aron parece virem dar razão aos que consideram reaccionário um pensamento que faz da "sociedade industrial" a sua besta negra: o que faz da tecnocracia, a Leste e a Oeste, uma organização unitária, frente a algo que, simplesmente, também não é a antinomia ou alternativa única e que importa. E basta lembrar aqui o que Raymond Aron disse contra a Revolução de Maio, que estava, no fundo e verdadeiramente (essa sim), contra a tecnocracia, a Leste e a Oeste. No fundo, ele, Raymond Aron, que critica teoricamente a sociedade industrial como um todo, quando chegou, na praxis, a altura de tomar partido contra a tecnocracia, ficou do lado dela e dos que a defenderam sempre com unhas e dentes.
Poderia ter sido da outro modo? Tratando-se de fazer frente e marcar posição totalmente oposta ao monstro unitário chamado Ordem Tecnocrática ou Ditadura da Máquina, Raymond Aron tinha fatalmente que alinhar com todos os poderes do Imobilismo (incluindo o Partido Comunista) que recusariam aderir à Imaginação no Poder). À Heresia feita, pela primeira vez na História, acção colectiva.

PATOLOGIA ADMINISTRATIVA

26 Março/1971 - Tudo se administra: o sexo, a educação, os tempos livres, a liberdade. Tudo se consome e se vende. Tudo se compra.
Ou antes: aquilo que se chama consumir, no mundo capitalista, passa a chamar-se “administrar" no mundo não capitalista.
De como se administra a Educação, leiam-se as publicações do Conselho da Europa, EFTA, Mercado Comum, ver-se-á o que significa, para essas instituições de recuperação capitalista face ao mercado socialista, o capital humano.
Reduzir o homem a capital, não será todo um programa e toda uma ontologia?
E de que mais precisará o critico abjeccionista, para localizar o factor-base da Abjecção?
Porque nos distraímos nós, se o Sistema o que pretende exactamente é distrair-nos?

O ALCANCE DA CRÍTICA ABJECCIONISTA

26 Março 1971 - A incidência exclusiva sobre a sociedade americana e seus cancros, pode vir a desviar a reflexão crítica do seu sentido mais lato e profundo.
Porque a crítica ao status norte-americano, parecendo esgotar toda a crítica (possível) da Abjecção, vai muito além da estrutura capitalista, para atingir toda uma "civilização". Aquela que, por antonomásia abusiva (já de si definidora da arrogância que a caracteriza), se classifica a si própria de Civilização.
Assim é que ao escândalo do subdesenvolvimento (a outra face do imperialismo capitalista e do colonialismo, como diria Josué de Castro), à luta de classes, à lei da mais valia, terá de seguir-se, necessariamente, uma crítica mais vasta e mais profunda daquilo que designamos por “vectores da Abjecção" .
Tem-se feito crer que a denúncia da Bomba e da Poluição, da Burocracia e da Ditadura de Estado, da Tortura e da Extrospecção Aberrante, da maratona termonuclear e da maratona olímpica, da maratona super-sónica e da maratona espacial, do Cancro e do Falhanço da Medicina Sintomática, dos Ídolos da Política e da Política dos Ídolos,- tudo coisas não privativas do capitalismo - são manobras de distracção que o imperialismo lança para atear a contra-revolução, para opiar os povos, para atrasar a subversão, etc.
No entanto, há que denunciar também essa manobra de silenciação, que só pretende inibir a verdadeira crítica que é a crítica da Abjecção, indistintamente, quer essa Abjecção se verifique a Leste ou a Oeste.
Embora "engagé" , a única verdadeiramente "engagé" , a crítica da Abjecção distingue-se de todas as críticas ditas "engagés” porque vai além da mera e exclusiva análise económica, avança sobre a dialéctica das classes, pretende abarcar o antropos e não só o homem político ou económico. Eis porque a Revolução será cultural.
E eis porque a perspectiva do crítico abjeccionista é mais vasta e mais ambiciosa.
Quando fazemos incidir demasiado a nossa atenção sobre uma parte dessa Abjecção, embora grande e importante - a da sociedade norte-americana - esquecemos derivantes e variantes de idêntica importância.
Quando a decepção cava mais fundo do que a "sociedade de consumo" (que é, afinal, uma sociedade do desperdício), o crítico é empurrado para a contra-cultura, pejorativamente classificada então pelos funcionários como esotérica, ocultista, hermética, mística e quem sabe se metafísica que se farta.
Pois. No hermetismo, porém, reside o segredo da luta contra o Regime Homicida, e só passando pela provação da doença (originada na Geral Doença que é em si a chamada Civilização), se encontra a primeira via de iniciação. Quantos anos demora, no entanto, essa iniciação, de que, é claro, tudo nos afasta!
Afastar-nos e distrair-nos de tudo é mesmo a grande força da Pedagogia Abjecta, ocupada de inflacionar os cérebros com inutilidades de memória, maneira expedita de nunca se atingir a Unidade ou Ponto Central que faria explodir a criatura contra as aberrações do Sistema que vive, principalmente, daquele conhecido lema: "dividir para reinar".
Dividindo, desintegrando, pulverizando, atomizando o Homem, o Sistema leva ganha metade da parada.
Acabar com a propriedade privada, não é tudo, nem é Revolução. Também os tiranos de Roma morreram, os inquisidores foram todos fazer torresmo, dos grandes criminosos nem os ossos restam e no entanto muita coisa há ainda que fazer. Abolir a propriedade e as classes não será tudo, embora seja mais um avanço e bastante bonito.

DISTRAIR E ADIAR

26/Março/1971 - O mito do "futuro" - vector da Abjecção - reina a Leste e a Oeste, é capitalista e anti-capitalista, serve, inerente ao Sistema, para distrair e adiar indefinidamente os homens das suas prementes necessidades presentes.
A ciência oficial ainda não conseguiu a "cura do cancro" (o que a demagogia chama de tal)? Pois bem: no futuro, com mais umas pesquisas e umas dotações a laboratórios, para os sábios continuarem à procura da rolha (quer dizer, do vírus) no futuro (quando? qual?) aí teremos a cura sensacional do Século. Entretanto, surgiram mais 20 ou trinta "doenças da civilização" de que também se promete a cura para daí a vinte ou trinta anos e assim sucessivamente.
"É preciso - que diabo: - aguentar um pouco. A ciência, coitada, também não é de ferro e não pode fazer tudo. Lá iremos, lá iremos."
Este alibi do "para amanhã a gente vê” é apenas um caso particular da lei geral - escapismo & escapanço, S.A.R.L. - a que a Abjecção lança mão para ir justificando eternamente os falhanços e crimes.
E - o que é mais espantoso - em nome da dialéctica. Como o homem não é nem pode aspirar ao absoluto, vá-se contentando com o relativozinho que o Sistema lhe dá e amanhã será (um pouco) melhor. Por agora, aguente. Por agora, sofra. Por agora, morra. Por agora, espere.
Sempre adiado, indefinidamente adiado, eis como a cultura da experimentação, da vanglória experimentalista, positivista, cientifísta, praticista, pragmaticista, etc, é a mais idealista, irrealista, teórica, metafísica e abstracta.
Nada se pratica, nada se aplica, nada se experiencia e experimenta, efectivamente. Tudo é transferido para depois: "grama e aguenta" é o grande grito da Civilização da Espera (por isso a do Desespero, também) e o mais que a Civilização do Papel conseguiu de concreto, de positivo, de prático, de real, de não metafísico, de não idealista. De efectivamente materialista, nada: Vivemos cada vez mais num aquário de signos que substituem a realidade.
Eis outro vector da Abjecção: o irrealismo do quotidiano para que tende todo o teor de vida extrospectivo. Acusado de místico, o que realiza a introspecção deve ser travado no seu caminho de aprofundamento, porque caminha para a Subversão que é a Imaginação. Caluniado como místico, metafísico, idealista, anti-progressivo e sei lá que mais, evita-se, tenta evitar-se que nasça um dos mais perigosos inimigos do Sistema: o indivíduo, o visionário, o poeta, o profeta, o homem de imaginação, o verdadeiro iniciado na Contra-Cultura.
Todos os alibis são bons para manter o Sistema nas suas eternizantes prerrogativas.

A CRÍTICA QUE INTERESSA: SITUAR EM VEZ DE ANALISAR

1/Abril/1971 - Se o ponto de arranque é este - cultura e contra-cultura -, se, quando se critica, a raiz do problema é saber como e se a obra, o autor contestam o Sistema, o Padrão, a Ordem onde se inserem, então pouco ou nada adianta análise de obras. Interessa, sim, situar o fenómeno (livro, obra, autor, escola, corrente, etc), quer dizer, saber em que medida ele se insere ou desinsere (servindo ou subvertendo o Sistema) no contexto sócio-político, histórico, cultural.
Daí que, ao falar de crítica, fale sempre de uma filosofia da história, de uma antropologia cultural e, finalmente, de uma mitologia negativa ou de uma axiologia (de uma mitologia positiva).
Quando critico um filme, não analiso o filme mas procuro situá-lo e ao seu autor e à sua estrutura mitológica. Não interessa saber se a obra é esteticamente válida e outras pachochadas da crítica habitual. Não interessa valorar de bom, bonzinho, péssimo, melhor, a obrinha, que nada significa na vastidão do que verdadeiramente importa.
Com um mínimo de realização estética (óbvia, desde logo, a quem ande nisto e tenha aprendido a ler esteticamente uma obra, que a intuição logo descobre, e por isso também não há que analisar) o que importa é pesá-la quanto a mitos, os negativos que serão os defendidos e propostos pelo crítico.
Se a esse situar da obra, não se quiser chamar crítica e se só a análise, fotograma por fotograma o é, pois que seja. Mas é só para dizer que a única coisa que (me) interessa quando falo de filmes, é saber até que ponto vai bulir isso com tudo o que importa: com a história e uma filosofia da história, com uma axiologia geral, com uma ótica, com uma filosofia, com uma teoria do conhecimento e etc Em suma, com o homem. Só. Repito: Só.

O DOM DA UBIQUIDADE

1/Abril/1971 - Parar uma intuição, uma ideia, uma palavra, é matá-los. Desde que se suspenda o movimento do que só em movimento vive, surge a morte.
Por isso quando ouço dizer que há tantos especialistas disto e daquilo, estremeço de horror. O especialista é, forçosamente, um tratador de mortos. Assim como o analista, o que disseca e parte e reparte. Só o movimento é síntese e só a síntese é vida, é viva.
Por isso nunca me prendo, não posso prender-me a nada. Estou hoje lendo Jorge de Lima, mais logo já é sobre a aceleração do processo histórico que tenho de me debruçar, mais adiante é sobre a verdade do zen ou sobre a tecnocracia, ou sobre os massacres de My Lay, ou sobre o valor literário de uma jovem estreia de romancista, ou sobre a deontologia profissional do jornalista, ou sobre se Arnold Toynbee, porque católico, é um historiógrafo reaccionário ou não, ou se Galileo é uma figura exemplar e se há necessidade de fazer uma história de todos os Galileos que, através da história, foram impedidos de trabalhar e desenvolver as suas intuições...
Qual o cérebro, qual o espírito humano que pode, que possa abarcar tudo ao mesmo tempo?
A ubiquidade é talvez o mito mais amado (sem o saber) pelo intelectual, pelo filósofo, pelo que deseja praticar a dialéctica, embora saiba que a dialéctica dificilmente é praticável.
Escrevi um dia algo, nestas páginas polémicas, sobre o "pensar o simultâneo". Sim, como pensar o simultâneo simultaneamente? O (nosso) cérebro é binário, pensa por exclusões consecutivas, não há possibilidade de pensar duas ou mais que duas ideias ao mesmo tempo.
Sim, na polémica onde me meti e me meteram, sei que tenho sido acusado de ignorante, de superficial, de inculto. Sim, claro e de certeza. Já não falando de todos os meus handicaps (tantos, tantos:), já não falando da doença crónica e da depressão nervosa, já não falando do desgosto de tudo o que seja ocidente e cultura ocidental, já não falando de um desgosto existencial ainda mais profundo que o cultural ou político ou patriótico, sei que nunca posso nem podia saber nada de nada: porque não podia parar aí onde cada especialista pára para se cantonar na sua especialidade.
Não admito, a título nenhum, parar num campo restrito, quando a existência, a realidade e sua complexidade, o movimento fervilham à minha volta, dentro, fora, por todo o lado, sempre, ao mesmo tempo.
Como escolher?
Onde parar a me deter?
Que fazer e por onde começar?
O que é supérfluo e o que ó fundamental?
No fundo, que especialidade é a minha?
Nos últimos tempos, tem-se-me tornado mais sensível um novo factor de caos: a aceleração histórica.
As coisas avançam em velocidade de vertigem. Se já era humanamente impossível, pela quantidade e pela complexidade, acompanhar o movimento das ideias e abranger e sintetizar a vasta gama de conhecimentos em que a cultura ocidental continua a ser pródiga por subdivisão e análise (onde e quando e para quem a síntese?) temos agora a velocidade a que tudo se processa, a aceleração do processo histórico, precisamente.
Pensei sempre que uma didáctica completamente nova é urgente. Penso agora mais do que nunca. Como sair disto? Como fazer face ao congestionamento de informações, de ideias, de doutrinas, de autores, de ismos, de livros, de escolas, de tendências?
Quem quiser ser honesto, pode ser algo mais do que um eterno aprendiz de tudo em movimento?

AGRESSIVIDADE E VIOLÊNCIA

7/Maio/1971 - Incapaz de desligar de si próprios a agressividade, pretendem os filósofos do Sistema convencer-nos de que a Agressividade é do Homem e não só do homem ocidental.
Por parte dos que têm por missão manter a ordem à força (polícias) mas também por parte dos outros, a quem incumbiria, em princípio e em teoria que fosse, uma certa humanidade, acabam todos por se render e converter à inevitabilidade da violência.
E chamam reaccionários aos que continuam a defender a não-violência, a possibilidade da não-violência, única, aliás, cientifica.
De facto, como combinam a fatalidade da violência com uma política científica e uma ciência política? Sendo como é a violência um remanescente bárbaro da humanidade pré-científica, como é que podem aderir à violência como solução de problemas, os que dizem resolver tudo cientificamente?
Numa entrevista que me concedeu para “O Século Ilustrado”, em Maio de 1971, o Dr. Almerindo Lessa afirmava: "Toda a Medicina é agressiva".
Tentei rectificar: toda a Medicina Ocidental.
E o entrevistado reincidiu: "Não existe mais nenhuma".
Parece-me que esta evidência - a da violência e da agressividade como inerentes à civilização que designamos ocidental - demonstra muita coisa: - não se trata efectivamente de uma civilização mas de uma barbárie que usurpou aquele titulo;
- se não há outro caminho para a Medicina, então a Medicina deve confessar o seu irremediável falhanço;
- se não há outro caminho para a Medicina, é esse mais um sinal de que a civilização está moribunda e que precisa de outra que a venha substituir;
- a tendência para ignorar outras civilizações está bem patente na resposta (arrogante) de Almerindo Lessa quando diz: "Mas existe mais alguma Medicina, além da ocidental?" (Ora a chatice é que existe mesmo).
- esta monomania de identificar humanidade com homem ocidental, aliada à inevitabilidade da violência no processo humano, se não conduzir à destruição de toda a humanidade, conduzirá, pelo menos, à substituição desta por outra civilização verdadeiramente civilizada: quer dizer, que cientificamente invente a maneira de os homens resolverem os seus problemas sem ser à castanha;
- daí que atitudes de não-violência sejam não só incompreensíveis por parte de políticos, militares, economistas e homens práticos, o que não admira, mas também por parte de outros funcionários que até, aparentemente, têm missões mais doces dentro da sociedade;
o médico é um desses exemplos. Esperava-se que o médico, ao menos, oferecesse resistência a essa inevitabilidade ou fatalidade. Que começasse por ele o rastilho da heresia. Que proclamando sempre, em congressos e por aí, um tão doce humanismo, o tentasse efectiva e realmente praticar.
Mas como? Se outra característica da "civilização" da qual não temos maneira de safar-nos, é essa "décalage" - hipocrisia ou demagogia - de as pessoas a dizerem, teorizarem, gritaram, proclamarem, ensinarem uma coisa (muito bela) e a praticarem outra completamente oposta ou distante (muito feia)?

Aqui e assim se joga, pois, uma "civilização". Que a polícia efectue "prisões em massa de manifestantes pacifistas", não admira. Já admira mais que o médico bonzarrão defenda, intransigentemente, a violência como factor inerente à "civilização", como se esta fosse a única e se identificasse completamente com ela.
Qualquer duro dirá que a flor do pacifismo nunca adiantou nada, e que só a moca da violência resolve, tem resolvido e continuará a resolver coisas.
Quer o duro tenha ou não razão, é pelo menos coerente: nem as grandes imprensas já podem ocultar as "manifestações pacifistas" que se multiplicam e a grande ou luxuosa edição publica livros sobre os hippies. E a literatura não-violenta de Buda, Lao Tse, Ramakhrisna começa a ser, não só uma moda de consumo mas uma violenta necessidade dos violentos ocidentais.
Enfim, a vitória da flor até tem que ser uma vitória diferente, e mal seria se a flor quisesse obter "vitórias" como os da moca. Que o cancro pacifista alastra e dá origem aos "underground" todos da Imprensa e do livro, eis do que não há dúvida. Cada qual dentro da sua lógica, a flor aceita tudo: incluindo ser espatifada pela moca. Mas, seja lá pelo que for, até não é isso que está acontecendo pela primeira vez na história da tal civilização ocidental que não dispensa a violência, nem à mocada.■

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